Arte indiana com sábios e yogis

A grande mentira

Por Pedro Kupfer 15 de novembro de 2001 2 minutos de leitura

Vivemos mergulhados na mentira, estamos cercados de mentiras por todos os lados. Das promessas dos políticos à publicidade, tudo é mentira. Mas há uma que é a maior, e que ninguém questiona. É a que chamamos a grande mentira.

A grande mentira é a crença, divulgada pelo materialismo, que diz que a vida é unidimensional e que qualquer afirmação sobre uma realidade absoluta é mera fantasia.

Dessa grande mentira surge um panorama da vida que nos priva da nossa participação nas dimensões superiores da existência e da nossa própria dignidade humana.

Sem veracidade, a pūjā é fútil.
Sem veracidade, o japa é inútil.
Sem veracidade, o tapas é tão estéril
como uma semente em solo infértil.
Realmente, a veracidade é o melhor ascetismo.
Todas as ações devem se enraizar na veracidade.
Nada é tão excelente como a verdade.
Mahānirvāṇa Tantra, IV:76-77

Esse śāstra expressa um sentimento que uma vez foi global, mas que hoje não passa de uma frase bonita. Sendo verdadeiros em nossos pensamentos, palavras e ações, estaremos automaticamente sendo verdadeiros com a nossa natureza superior, que é a verdade última. Sat significa real, verdadeiro, que existe de verdade.

Transformar a nossa natureza pessoal para fazer com que ela se sintonize com a realidade transpessoal é o objetivo principal de toda disciplina espiritual.

Segundo o Yoga, tudo é uma manifestação da realidade última, mas isso não se percebe facilmente, pois estamos sob a influência da ignorância. Assim, vivemos automaticamente. Vivemos uma mentira.

Essa mentira consiste na crença de que somos um corpo-mente limitado que precisa ter medo da morte e que está separado dos demais, que, por sua vez, também têm corpo-mentes limitados e medrosos.

Somente quando estamos em sintonia com a realidade superior é que conseguimos ser mesmo verdadeiros.

Veracidade em pensamentos, palavras e ações é o alicerce moral sobre o que se edifica a prática de Yoga.

A veracidade tem três aspectos:
1. sinceridade
2. simplicidade
3. naturalidade

Um mestre em Yoga é sempre ele mesmo, sem importar quem esteja à sua frente. O yogi deve alimentar as suas mais elevadas aspirações através das pequenas verdades que precisam ser respeitadas no dia-a-dia.

É preciso viver o cotidiano com integridade e consciência de que a veracidade é um poder imenso, e é condição sine qua non para a liberdade.

॥ हरिः ॐ ॥

Leia mais sobre satya,
a veracidade, aqui e aqui

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Pedro Kupfer

Pedro nasceu no Uruguai em 1966. Conheceu o Yoga na adolescência e pratica desde então. Aprecia o Yoga mais como uma visão do mundo que inclui um estilo de vida, do que uma simples prática. Escreveu e traduziu 10 livros sobre Yoga, além de editar as revistas Yoga Journal e Cadernos de Yoga e o site yoga.pro.br. Para continuar seu aprendizado, visita à Índia regularmente há mais de três décadas.
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