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Os Siddhis no Yogasūtra

Por Pedro Kupfer 26 de junho de 2020 10 minutos de leitura

Siddhis são superpoderes?

Segundo é narrado em textos clássicos, como resultado das primeiras formas do samādhi, o praticante adquire algumas habilidades, chamadas siddhis ou “perfeições”.

Ao exercer saṁyama sobre uma determinada manifestação da natureza, por exemplo, o yogi assimila o siddhi, o poder inerente a ela.

Esses poderes são formas diferentes de relacionar-se com as leis naturais, que visam a estimular o sādhaka, desenvolvendo confiança para assim permanecer motivado para a liberação, mokṣa.

Eles fazem parte da cultura do Yoga e do Tantra, e são mencionados em obras como o Yogasūtra ou o Śivasūtra.

Levitação no século XXI?

No entanto, e por fascinante que o temados siddhis seja para alguns praticantes de Yoga ocidentais, ele é igualmente assaz elusivo: não há nenhum mestre conhecido nas últimas décadas capaz de demonstrar, e muito menos ensinar, de que maneira funcionam ou podem ser aplicados os siddhis.

siddhis

O Maharishi Mahesh Yogi, falecido guru dos Beatles, alegava ter domínio sobre os siddhis da levitação, e supostamente ensinava essas técnicas aos seus discípulos, usando o sūtra III:43 como “fórmula mágica”.

No entanto, o caro procedimento (4500 dólares) não é levitação propriamente dita, mas um treino para saltar sobre um colchão na postura do lótus.

Os discípulos do Maharishi chamam aquilo de yogic flying, e promovem competições par ver quem “voa” mais longe, como pode ser verificado aqui.

https://www.youtube.com/watch?v=UUnxnuUVEOs

Este grupo acredita que se houver um número suficiente de pessoas pulando em padmāsana, a paz irá finalmente reinar no mundo.

Como efeitos colaterais desejáveis dessa “levitação” grupal, sempre segundo os discípulos do Maharishi, a economia mundial também melhora, a pobreza diminui e o terrorismo global é reduzido.

Tudo isso é “cientificamente demonstrado”, com gráficos e pormenores, no vídeo acima.

Além disso, aquele que “levita” mais alto ganha ovações do respeitável público e ainda ganha uma medalha por ajudar a salvar o mundo.

O amigo leitor pode questionar legitimamente qual é a relação causal entre pular feito uma rã com as pernas cruzadas e conseguir a paz mundial e a prosperidade global, mas essa é outra história.

As limitações dos siddhis

Por bem-intencionado e folclórico que o caso acima narrado pareça, nada tem a ver com o siddhi da levitação conforme é explanado na tradição do Yoga.

O próprio Patañjali Mahāṛṣi adverte o leitor no terceiro capítulo (III:38) do Yogasūtra que, “Embora estas sejam perfeições no mundo [dual],
constituem um obstáculo para o samādhi” (te samādhāvupasargā vyutthāne siddhayaḥ).

No sūtra 51, ele ainda afirma tadvairāgyādapi doṣabījakṣaye kaivalyam: “Pela destruição da semente dos condicionamentos e o desapego a esses [siddhis], alcança-se a libertação, kaivalya“.

Portanto, fica claro pela própria recomendação do sábio, que os siddis devem ser deixados de lado.

A descrição dos siddhis

Patañjali dedica uma boa parte do capítulo III dos Sūtras à enumeração e descrição dos diferentes suportes sobre os quais é possível fazer saṁyama, e as qualidades derivadas dessas contemplações. Apresentamos aqui uma lista parcial desses poderes.

परिणामत्रयसंयमाद् अतीतानागतज्ञानम् ॥ १६ ॥

pariṇāmatrayasaṁyamād atītānāgatajñānam || 16 ||

Pādapāṭha tradução palavra por palavra

pariṇāma: evolução, transformação; traya: tríplice; saṁyama: meditação; atīta: passado; anāgata: futuro; jñānam: conhecimento.

Fazendo saṁyama sobre as três transformações
surge o conhecimento do passado e do futuro. || 16 ||

O yogi, vivendo conscientemente, já não se distrai nem surpreende com nada pois, conhecendo a natureza da mente, e havendo compreendido no passado como ela funciona, consegue antecipar o futuro. As “três transformações” que o presente sūtra menciona são as três fases do pariṇāma listadas no 13.


शब्दार्थप्रत्ययानामितरेतराध्यासात्
सङ्करस्तत्प्रविभागसंयमात्सर्वभूतरुतज्ञानम् ॥ १७ ॥

śabdārthapratyayānāmitaretarādhyāsāt
saṅkarastatpravibhāgasaṁyamātsarvabhūtarutajñānam || 17 ||

Pādapāṭha tradução palavra por palavra

śabda: som, palavra; artha: objeto; pratyaya: ideia, conceito; itara-itara: um no outro; adhyāsāt: superimposição; saṅkara: confusão; tat: estes; pravibhāga: distinções, diferenciações; saṁyama: meditação; sarvabhūta = todos os seres: ; ruta: linguagem, idioma, fala; jñānam: conhecimento.

Palavra, objeto e ideia confundem-se devido à superimposição.
Praticando saṁyama [sobre a diferença entre eles, surge]
o conhecimento da linguagem de todos os seres. || 17 ||


संस्कारसाक्षात्करणात्पूर्वजातिज्ञानम् ॥ १८ ॥

saṁskārasākṣātkaraṇātpūrvajātijñānam || 18 ||

Pādapāṭha tradução palavra por palavra

saṁskāra: impressões subconscientes; sākṣāt: direto, imediato; karaṇa: percepção, experiência; pūrva: passado; jāti: nascimentos; jñānam: conhecimento.

Pela percepção direta do saṁskāra, [surge]
o conhecimento dos nascimentos prévios. || 18 ||


प्रत्ययस्य परचित्तज्ञानम् ॥ १९ ॥

pratyayasya paracittajñānam || 19 ||

Pādapāṭha tradução palavra por palavra

pratyayasya: das ideias, noções, conceitos; para: outrem; citta: psiquê; jñānam: conhecimento.

[Contemplando] os conteúdos mentais
surge a compreensão das mentes dos demais. || 19 ||


न च तत्सालम्बनं तस्याविषयीभूतत्वात् ॥ २० ॥

na ca tatsālambanaṁ tasyāviṣayībhūtatvāt || 20 ||

Pādapāṭha tradução palavra por palavra

na: não; ca: porém; tat: esse, aquele; sālambanaṁ: com apoio; tasya: seu; aviṣayīn: fora do alcance; bhūtatvāt: ser, estar.

Porém, a base subjazente [i.e., o saṁskāra] a essa
compreensão fica fora do alcance da observação. || 20 ||


कायरूपसंयमात्तद्ग्राह्यशक्तिस्तम्भे
चक्षुःप्रकाशासम्प्रयोगेऽन्तर्धानम् ॥ २१ ॥

kāyarūpasaṁyamāttadgrāhyaśaktistambhe
cakṣuḥprakāśāsamprayoge’ntardhānam || 21 ||

Pādapāṭha tradução palavra por palavra

kāya: corpo; rūpa: forma; saṁyama: meditação; tat: esse; grāhya: que pode ser percebido; śakti: poder; stambhe: suspenso, interrompido; cakṣuḥ: olho, olhar; prakāśa: luz, iluminação, características perceptíveis; asamprayogaḥ: desconectado, interrompido, suspenso; antardhānam: invisibilidade, desaparecimento.

Pelo saṁyama sobre a forma do corpo, [o yogi] pode suspender
a percepção da sua luz, permanecendo invisível aos olhos de outrem. || 21 ||


एतेन शब्दाद्यन्तर्धानमुक्तम् ॥ २२ ॥

etena śabdādyantardhānamuktam || 22 ||

Pādapāṭha tradução palavra por palavra

etena: por este; śabdādi: som e outros; antardhānam: suspensão, parada; uktam: é explicado.

Pelo mesmo processo é explicada a suspensão dos sons e demais
[capacidades do corpo de ser percebido: cheiro, tato e paladar]. || 22 ||


सोपक्रमं निरुपक्रमं च कर्म तत्संयमादपरान्तज्ञानमरिष्टेभ्यो वा ॥ २३ ॥

sopakramaṁ nirupakramaṁ ca karma
tatsaṁyamādaparāntajñānamariṣṭebhyo vā || 23 ||

Pādapāṭha tradução palavra por palavra

sopakramaṁ: imediato, ativo, de rápida frutificação; nirupakramaṁ: dormente, inativo, de frutificação lenta; ca: e; karma: ação; tat: essas; saṁyama: meditação; adaparānta: morte; jñāna: conhecimento; ariṣṭebhyaḥ: através de sinais, presságios; vā: ou.

As ações produzem frutos imediatos ou futuros.
[Meditando sobre] elas, o yogi antecipa seus resultados.
Assim, conhece o momento da sua morte e seus sinais. || 23 ||


मैत्र्यादिषु बलानि ॥ २४ ॥

maitryādiṣu balāni || 24 ||

Pādapāṭha tradução palavra por palavra

maitri: amizade; ādiṣu: e outras, demais, etcetera; balāni: força.

[Meditando sobre] a amizade e outras [virtudes, o yogi] se fortalece. || 24 ||


बलेषु हस्तिबलादीनि ॥ २५ ॥

baleṣu hastibalādīni || 25 ||

Pādapāṭha tradução palavra por palavra

baleṣu: sobre as forças; hastibalādīni: a força do elefante.

[Ao fazer saṁyama] nas forças
[surge] a força do elefante. || 25 ||


प्रवृत्त्यालोकन्यासात्सूक्ष्मव्यवहितविप्रकृष्टज्ञानम् ॥ २६ ॥

pravṛttyālokanyāsātsūkṣmavyavahitaviprakṛṣṭajñānam || 26 ||

Pādapāṭha tradução palavra por palavra

pravṛtti: atividade sutil, luz da percepção; aloka: luz, iluminar, tornar visível; nyāsāt: direcionar, focar, concentrar; sūkṣma: sutil; vyavahita: escondido, oculto; viprakṛṣṭa: distante, remoto; jñānam: conhecimento.

Dirigindo o foco da luz interior surge o conhecimento
de objetos sutis, ocultos ou distantes. || 26 ||


भुवनज्ञानं सूर्ये संयमात् ॥ २७ ॥

bhuvanajñānaṁ sūrye saṁyamāt || 27 ||

Pādapāṭha tradução palavra por palavra

bhuvana: universo, cosmos; jñānaṁ: conhecimento; sūrya: sol; saṁyamāt: prática de saṁyama: concentração, meditação e samādhi.

Pelo saṁyama sobre o Sol, conhece-se o Cosmos. || 27 ||


चन्द्रे ताराव्यूहज्ञानम् ॥ २८ ॥

candre tārāvyūhajñānam || 28 ||

Pādapāṭha tradução palavra por palavra

candra: lua; tāre: das estrelas; vyūha: sistema, arranjo ou posição; jñānam: conhecimento.

[Através do saṁyama sobre] a Lua adquire-se
o conhecimento da posição das estrelas. || 28 ||


ध्रुवे तद्गतिज्ञानम् ॥ २९ ॥

dhruve tadgatijñānam || 29 ||

Pādapāṭha tradução palavra por palavra

dhruve: a estrela polar; tadgati: seus movimentos; jñānam: conhecimento.

[Aplicando saṁyama sobre] a estrela polar, conhecimento
sobre o movimento dos corpos celestes pode ser obtido. || 29 ||


नाभिचक्रे कायव्यूहज्ञानम् ॥ ३० ॥

nābhicakre kāyavyūhajñānam || 30 ||

Pādapāṭha tradução palavra por palavra

nābhicakre: sobre o centro energético da região do umbigo; kāyavyūha: dos sistemas do corpo físico; jñānam: conhecimento.

[Meditando] sobre o cakra do umbigo [manipura,
ganha-se] conhecimento dos sistemas do corpo. || 30 ||


कण्ठकूपे क्षुत्पिपासानिवृत्तिः ॥ ३१ ॥

kaṇṭhakūpe kṣutpipāsānivṛttiḥ || 31 ||

Pādapāṭha tradução palavra por palavra

kaṇṭha: garganta; kūpe: no poço; kṣut: fome; pipāsā: sede; nivṛttiḥ: cessar, retrair.

[Exercendo saṁyama] no poço (centro) da
garganta, cessam a fome e a sede. || 31 ||


कूर्मनाड्यां स्थैर्यम् ॥ ३२ ॥

kūrmanāḍyāṁ sthairyam || 32 ||

Pādapāṭha tradução palavra por palavra

kūrmanāḍyāṁ: sobre kūrmanāḍī, o “meridiano da tartaruga”, na região da garganta; sthairyam: estabilidade, firmeza.

[Pelo saṁyama sobre] kūrmanāḍī [meridiano
da traquéia, surge] a estabilidade [emocional]. || 32 ||


मूर्धज्योतिषि सिद्धदर्शनम् ॥ ३३ ॥

mūrdhajyotiṣi siddhadarśanam || 33 ||

Pādapāṭha tradução palavra por palavra

mūrdha: parte mais alta da cabeça; jyotiṣi: luz; siddha: seres perfeitos, mestres; darśanam: visão.

[Meditando na] luz do alto da cabeça [sahāsrara]
obtém-se a visão dos seres perfeitos. || 33 ||


प्रातिभाद्वा सर्वम् ॥ ३४ ॥

prātibhādvā sarvam || 34 ||

Pādapāṭha tradução palavra por palavra

prātibhā: insight, luz da intuição, iluminação; vā: ou; sarvam: tudo.

Ou [o conhecimento de] todas as coisas surge da intuição. || 34 ||


हृदये चित्तसंवित् ॥ ३५ ॥

hṛdaye cittasaṁvit || 35 ||

Pādapāṭha tradução palavra por palavra

hṛdaye: coração; citta: psiquê; saṁvit: conhecimento completo, total.

[Pelo saṁyama] sobre o coração,
[obtém-se] conhecimento total de psiquê. || 35 ||


सत्त्वपुरुषयोरत्यन्तासंकीर्णयोः प्रत्ययाविशेषो भोगः
परार्थत्वात्स्वार्थसंयमात्पुरुषज्ञानम् ॥ ३६ ॥

sattvapuruṣayoratyantāsaṁkīrṇayoḥ pratyayāviśeṣo bhogaḥ
parārthatvātsvārthasaṁyamātpuruṣajñānam || 36 ||

Pādapāṭha tradução palavra por palavra

sattva: pureza mental e emocional, harmonia; puruṣa: Ātma, Ser, Consciência; yoḥ: entre; atyanta: completamente, de maneira total; asaṁkīrṇayoḥ: apesar da diferença; pratyayaḥ: com uma base comum; aviśeṣaḥ: não diferente; bhogaḥ: experiência, desfrute; parārthatvāt: devido à busca mais elevada; svārtha: pelo seu próprio; saṁyamāt: devido à meditação, por causa do saṁyama; puruṣa: Ātma, Ser, Consciência; jñānam: conhecimento.

Sattva [a psiquê purificada] e Puruṣa são absolutamente diferentes.
Apesar [disso], a base das experiências é comum a ambos.
Pelo saṁyama sobre si mesmo, devido à busca mais elevada,
[revela-se] o conhecimento da Consciência. || 36 ||

+ sobre o
Yogasūtra aqui

Recomendamos esta leitura de John Zubrzycki para quem quiser compreender o vínculo entre a espiritualidade e a mágica na Índia: Empire of Enchantment.

A imagem que ilustra este artigo foi extraída da capa desse livro.

॥ हरिः ॐ ॥

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Pedro Kupfer

Pedro nasceu no Uruguai em 1966. Conheceu o Yoga na adolescência e pratica desde então. Aprecia o Yoga mais como uma visão do mundo que inclui um estilo de vida, do que uma simples prática. Escreveu e traduziu 10 livros sobre Yoga, além de editar as revistas Yoga Journal e Cadernos de Yoga e o site yoga.pro.br. Para continuar seu aprendizado, visita à Índia regularmente há mais de três décadas.
Biografia completa | Artigos

5 respostas

  1. Sou totalmente leiga neste assunto,mas consegui captar coisas bem interessantes neste seu artigo ,parabéns !

  2. Muito bom, Pedro. Muito obrigado pelos esclarecimentos… Fiz o curso de Siddhis da MT, e esse conteúdo que você apresenta aqui agregou conhecimento para mim! Saudações amigo!

  3. Post inútil não ajudou em nada

  4. Harih Om

    “Praticando Samyama sobre o agora, alcança-se a descomplicada liberação”

    Om)))

  5. caetano cosso

    muito bom,principalmente os ultimos três parágrafos!

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