Miniatura da Jogapradīpikā (c. 1830): Yogi sentado numa gruta, sobre a colina

Ahaṁ Brahmāsmi: Eu Sou o Ilimitado

Por Pedro Kupfer 7 de novembro de 2026 9 minutos de leitura

श्रीः

अहं ब्रह्मास्मि

Ahaṁ Brahmāsmi

Eu Sou o Ilimitado · Pedro Kupfer

Ela está num antigo texto chamado Bṛhadāraṇyakopaniṣad, ou a Upaniṣad do Imenso Bosque [do Conhecimento]. Essa Upaniṣad está associada com e faz parte do Śukla Yajur Veda.

Ouça na Rádio Havelī: Pūrṇamadaḥ

Noutro momento desse diálogo, ele ainda diz para ela: “Em verdade, minha querida Maitreyī, é o Ser quem deve ser conhecido. Palavras sobre ele devem ser ouvidas. Reflexões e meditações sobre essas palavras devem ser feitas. Pelo conhecimento do Ser, minha querida, através do ouvir, o questionar e o refletir, tudo é conhecido”. A invocação da paz que fizemos no início também é dessa importante Upaniṣad.

Aham Brahma’smi, eu sou Brahman, o Ser Ilimitado, que é Consciência.

Brahman não é um objeto que possa ser conhecido. O conhecimento de algum objeto não liberta. Assim, Brahman não pode ser um objeto. Você não pode experienciar Brahman. Não pode tocar Brahman, nem se esbarrar com ele andando pela rua ou meditando. Portanto, há uma série de noções das quais você terá que se livrar, pois não têm lugar nesta compreensão.

Permita-me presentar Brahman nos seguintes termos: Brahman jijnyasam, o conhecimento de Brahman, implica um jñāna icchayaviśayam, um desejo genuíno de conhecer. Isto é diferente de desejar a pose de algum objeto, diferente do desejo de criar ou conquistar algo. Brahman não é um objeto de desejo, em nenhum sentido que não seja o desejo de conhecer.

Brahman não é um objeto comum ou incomum. A aproximação ao conhecimento de Brahman, Brahmavidyā, deve ser cuidadosa e peculiar, portanto. O que é este Brahman? Se precisamos conhecer este Brahman que é diferente de tudo o mais, como é que esse conhecimento tem lugar? O que acontece quando você conhece Brahman?

Brahman não está “além da mente, além do conhecimento, além das palavras”, como se diz. Pois, se isso fosse verdadeiro, como é que eu conseguiria conhecê-lo? Se se diz que Brahman está mais além dos hemisférios direito e do esquerdo, com que hemisfério é que você irá conhecê-lo? Estas palavras não fazem muito sentido.

Brahman não é um objeto diferente de outros objetos. Como é que vou conhecê-lo, então? Suponhamos que eu diga que qualquer coisa em que você pense, é Brahman. Um lugar, um objeto, um país, uma emoção, um animal. Tudo é Brahman. E o paraíso? Também é Brahman. E as galáxias e o espaço exterior? Também são Brahman. E as leis naturais? Também são Brahman.

Você poderá se sentir genuinamente desconcertado perante estas afirmações. Aquele que diz que tudo é Brahman, também é Brahman. Isso deve ser compreendido corretamente. Qualquer coisa em que você possa pensar é Brahman. Tudo o que é, é Brahman, tanto o conhecido como o desconhecido.

O processo de pensar, que é necessário para objetificar, tampouco está separado de Brahman. O objeto de pensamento, o pensamento, o ato de pensar, tudo é Brahman. Tudo o que está aqui é Brahman. Você tem direito de dizer que isto é demais, que você é o sujeito que observa os processos de maneira isolada ou independente, que há uma diferença entre observador e objetos observados, que há diferença entre sujeito e objetos.

Mas, eu lhe digo que o conhecedor e o conhecido são Brahman. Se você me perguntar, então, como é que você pode experienciar Brahman, a pergunta, convenhamos, é inadequada. Você já está experienciando Brahman, que é tudo o que está aqui: conhecido, conhecedor, conhecimento. Tudo o que está aqui é Brahman. A experiência, o experienciador, o objeto experienciado, são Brahman.

***

Assim, a Consciência que você é, não é um objeto da Consciência. O significado da palavra Eu está atrelado a certeza de que existimos. Para dizer que você existe você não precisa de nenhum meio de conhecimento.

Você existe, é consciente e não precisa de nenhum meio de conhecimento para saber disso. Você é autorrevelado, e o mundo inteiro, como objeto da sua consciência, é diferente de si. Você, é. O mundo se revela para você. Como vimos na nossa última meditação, nada existe afora da Consciência. Aham Brahma’smi, eu sou Brahman, o Ser Ilimitado.

Assim, temos duas ordens: o que é autoevidente, que é você mesmo, e o que se torna evidente para você, que são os objetos. Consciência é o que você é. Tudo o que é, é objeto da Consciência. Aham Brahma’smi, eu sou Brahman, o Ser Ilimitado.

Você é diferente de tudo. Aquilo que você vê, é objeto da sua consciência. Aquilo que você sente, é objeto da sua consciência. Aquilo que você ouve, é objeto da sua consciência. Aquilo que você recolhe pelos sentidos, é objeto da sua consciência. Seu próprio corpo é objeto da consciência. A cor da sua pele é objeto da consciência. A altura do corpo é objeto da consciência. O peso do corpo é objeto da consciência.

A saúde do corpo é um objeto da consciência também. Qualquer sensação de dor ou prazer é objeto da consciência. Bem-estar e desconforto são objetos da consciência. Fome e sede são objetos da consciência. Qualquer emoção ou pensam são igualmente objetos da consciência. Qualquer cognição ou ausência dela, qualquer lembrança, são objetos da consciência. O que é que não é objeto da consciência? A consciência. A consciência não é um objeto da consciência.

Aham Brahma’smi, eu sou Brahman, o Ser Ilimitado. Em toda e qualquer evidência, há consciência. Há a presença invariável da consciência. A consciência do monolito de rocha. A consciência da terra. A consciência do corpo na terra. A consciência do prāṇa. A consciência da mente. Qualquer evidência é em termos de conhecimento.

Há consciência dos sons, consciência do toque, consciência dos cheiros, consciência das formas. Tudo é objeto da consciência. Samvit eka. Uma consciência invariável, muitos objetos. E essa consciência é o significado da palavra Eu. Essa consciência não precisa de nenhuma prova. “Faça me entender que eu sou Consciência”: você não precisa dizer tal coisa.

Aham Brahma’smi, eu sou Brahman, o Ser Ilimitado, que é Consciência. Você é Consciência. E consciência é algo. Não é vazio. Não é ausência. Não é destelho. Não é algo que vem e vai. Como e que você saberia que a consciência “se foi”, se ela fosse mesmo algo que vem e vai? Um destelho não sabe que é um destelho. Você não é um destelho. Você não varia. Você não está presente num momento e ausente no momento seguinte.

Pelo menos, não é isso o que o Yoga nos ensina. Que há uma coisa que se revela por si mesma, e que permite revelar tudo o mais, é certo. Essa coisa é a Consciência, cuja presença tudo revela. Consciência que é autorrevelada. O resto é objeto dessa consciência. Portanto, o significado da palavra Consciência é você.

Aquilo que é, é a Consciência. Consciência autorrevelada que revela tudo. Este dia é: o dia é objeto da consciência. Este ano é: o ano é objeto da consciência. Este século é: o século é objeto da consciência. Esta era é: a era é objeto da consciência. Este tempo é: o tempo é objeto da consciência. Este momento é: o momento é objeto da consciência. Esta distância é: a distância é objeto da consciência.

Portanto, da consciência, qual seria a distância entre você e eu? Se você é o significado da palavra Consciência, qual é a distância entre você e este objeto da sua consciência que é esta voz que você ouve agora? Não há distância. E qual seria a distância entre você, que é consciência, e seu próprio corpo? Não há distância. E qual seria a distância entre você, que é consciência, e as estrelas mais distantes? Não há distância.

Entre a consciência e qualquer objeto, a distância é sempre zero. Você remove o objeto, e há consciência. Você acrescenta outro objeto e a distância ainda permance zero. Por que? Pois a consciência não é limitada pelo tempo nem pelo espaço, pois a consciência não tem dimensões. Pois é ilimitada em termos de tempo. Pois é ilimitada em termos de espaço. E porque não há nada que esteja fora da consciência. E porque não há nada que exista fora da consciência.

Aham Brahma’smi, eu sou Brahman, o Ser Ilimitado. Consciência é o Todo. Esta Consciência é Ilimitada. E esta Consciência que é você. Você é existente. Você é autoconsciente. Você é o pleno, pois não há nada afora o pleno. Nada existe afora do Ilimitado. Nada existe afora da plenitude. Aham Brahma’smi, eu sou Brahman, o Ser Ilimitado.

Imagem de destaque: Yogi sentado numa gruta, sobre a colina. Jogapradīpikā, c. 1830, British Library (domínio público).

॥ हरिः ॐ ॥

Nesta série: Vedānta e os grandes ensinamentos

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Pedro Kupfer

Pedro nasceu no Uruguai em 1966. Conheceu o Yoga na adolescência e pratica desde então. Aprecia o Yoga mais como uma visão do mundo que inclui um estilo de vida, do que uma simples prática. Escreveu e traduziu 10 livros sobre Yoga, além de editar as revistas Yoga Journal e Cadernos de Yoga e o site yoga.pro.br. Para continuar seu aprendizado, visita à Índia regularmente há mais de três décadas.
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