Escultura de pedra (Mathura, período Kushan, c. 125–150): Cabeça de um ṛṣi

Prajñānaṁ Brahma: o Ser é Plena Consciência

Por Pedro Kupfer 7 de novembro de 2026 7 minutos de leitura

श्रीः

प्रज्ञानं ब्रह्म

Prajñānaṁ Brahma

O Ser é Plena Consciência · Pedro Kupfer

Oṁ. Que a palavra se alinhe com a mente. Que a mente se harmonize com a palavra. Ó Ser autoefulgente, revele-se a mim! Que a palavra e a mente me tragam o Veda. Que o que ouvi do Veda não se afaste de mim. Noite e dia dedico-me a isso. Penso a verdade. Falo a verdade. Que o Ilimitado me proteja. Que proteja o professor. Que me proteja.

O mantra

ॐ वाङ् मे मनसि प्रतिष्ठिता मनो मे वाचि प्रतिष्ठितम् ।
आविर् आवीर् म एधि वेदस्य म आणीस्थः श्रुतं मे मा प्रहासीः ।
अनेनाधीतेनाहोरात्रान् सन्दधामि ऋतं वदिष्यामि सत्यं वदिष्यामि ।
तन् माम् अवतु तद् वक्तारम् अवतु अवतु माम् अवतु वक्तारम् अवतु वक्तारम् ॥
ॐ शान्तिः शान्तिः शान्तिः ॥

oṁ vāṅ me manasi pratiṣṭhitā mano me vāci pratiṣṭhitam |
āvir āvīr ma edhi vedasya ma āṇīsthaḥ śrutaṁ me mā prahāsīḥ |
anenādhītenāhorātrān sandadhāmi ṛtaṁ vadiṣyāmi satyaṁ vadiṣyāmi |
tan mām avatu tad vaktāram avatu avatu mām avatu vaktāram avatu vaktāram ||
oṁ śāntiḥ śāntiḥ śāntiḥ ||

A palavra mahāvākya significa literalmente “grande afirmação” ou “grande palavra”. Tendo feito isso, pessoalmente considero que você esteja preparado para se beneficiar deste ensinamento.

Os quatro mahāvākyas são basicamente, quatro frases muito curtas, de apenas duas ou três palavras cada, que funcionam como equações. Acontece que, desde o ponto de vista da mente humana, vê-se somente separação, dualidade e distância. Porém, essa visão é equivocada. É o que chamamos māyā, em sânscrito, ou a visão do relativo, que nos ofusca a percepção da Unidade que está em tudo e em todos.

Essas equações que são estes quatro mantras equiparam o indivíduo ao Todo. Ora, é evidente, desde o ponto de vista da mente, que há separação, que eu não sou nem posso ser o Todo. Então, a ideia da equação faz muito sentido, pois uma equação é uma fórmula que tem três partes. O meio é o símbolo =. E, o que está a ambos os lados do símbolo da identidade precisa ser, necessariamente, diferente.

Por exemplo, dizer que 8 = 8 não é uma equação, pois a cifra que há a ambos os lados do signo = é a mesma. Porém, se dizermos 5 + 3 = 54 – 46, aí sim, estaremos frente a uma equação, uma vez que ambos os lados são aparentemente distintos, mas essencialmente idênticos.

O símbolo =, em todos os quatro mantras, é o verbo ser, conjugado na forma de é. Assim, esses quatro mantras são os seguintes:

  • O Ser é Plena Consciência: Prājñanam Brahman
  • Eu sou Ilimitado: Ahaṁ Brahma’smi
  • Você é Aquilo [o Ilimitado]: Tattvamasi
  • O Indivíduo é o Ilimitado: Ayam Ātma Brahman

Onde encontramos estes quatro mantras?

Prājñanam Brahman figura na Aitareya Upaniṣad, que pertence ao Ṛg Veda.

Ahaṁ Brahma’smi é da Bṛhadāraṇyaka Upaniṣad, que está no Śukla Yajur Veda,

Tattvamasi está na Chāndogyopaniṣad, que faz parte do Sama Veda, e

Ayam Ātma Brahman aparece na Māṇḍūkya Upaniṣad, que é do Athārva Veda.

No primeiro caso, a ambos os lados do verbo, temos a palavra Brahman, ou Ser, e do outro lado a palavra Prājñanam ou Consciência, estabelecendo uma identidade entre Ser e Consciência, como veremos nesta meditação, que pertence à Aitareya Upaniṣad, que por sua vez faz parte do Ṛg Veda. Nos demais mantras, que veremos oportunamente, há vários nomes e pronomes a ambos os lados do símbolo =, que basicamente, se referem ao mesmo: o indivíduo é o Todo.

Repare no seguinte detalhe: estamos falando aqui de identidade, não se semelhança ou similariedade. Quando se diz que você é o Ilimitado, isto não é uma figura de linguagem, não é retórica, mas também não deve ser interpretado desde o ponto de vista da nossa mente ou do nosso ego. Veremos isso com todo cuidado ao longo destas quatro meditações.

Estas palavras apontam para aquela realidade que não está disponível nem pode ser conhecida pelos outros meios de conhecimento que não seja a compreensão de si mesmo.

Aquele que olha é o Eu consciente. Aquilo que está sendo observado não é totalmente diferente de você mesmo. Permaneça consciente do respirar, do fluir a força vital. Observe o ritmo da respiração. Agora, olhe para a sua mente. Veja que a sua mente está ativa, e que nela, cada pensam surge do anterior e dá lugar ao seguinte. Essa é a natureza da mente, e está tudo bem com isso. Você não quer que a mente seja diferente daquilo que ela é.

Este mantra diz que o Ser é Consciência: Prājñanam Brahman. Dos três elementos do mantra, a palavra Brahman aponta para o Ser que você é. O verbo ser está claro. Você existe. Você é. Você não precisa que alguém lhe explique que você existe. Você é, e isso é evidente para você, pois o Ser é autoevidente. E esse Ser, que é autoevidente, é Consciência.

Qual é o significado da palavra consciência? Pense nestas palavras e seus significados: Mar, terra, nuvem, vento. Consciência. Céu, sol, lua, espaço, tempo. Consciência. Você vê um objeto quando ouve a palavra consciência? Não. Você vê ausência de significado? Não. Há um significado sem haver um objeto? Sim. Pense num objeto agora, que esteja fora da consciência.

O Ser é Consciência: Prājñanam Brahman

Oceano: há consciência do oceano. Onda: há consciência da onda. Vento: há consciência do vento. Qualquer pensamento, qualquer objeto, vai estar incluído dentro da consciência. Você não pode pensar em algo sem incluir esse algo na consciência que você é.

Visualize o oceano. As ondas. Você pode ver uma onda separada da água? Você pode conceber uma onda fora da consciência? Você consegue ver a água separada da consciência? Você pode pensar no oceano afora da sua consciência? Você pode conceber algum lugar que não esteja dentro da sua consciência? Pode a mente fugir da consciência? Apenas seja você mesmo. Escutar acontece. Você não precisa fazer nada agora.

O Ser é Consciência: Prājñanam Brahman

Imagem de destaque: Cabeça de um ṛṣi, Mathura, período Kushan, c. 125–150. Cleveland Museum of Art (CC0).

॥ हरिः ॐ ॥

Nesta série: Vedānta e os grandes ensinamentos

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Pedro Kupfer

Pedro nasceu no Uruguai em 1966. Conheceu o Yoga na adolescência e pratica desde então. Aprecia o Yoga mais como uma visão do mundo que inclui um estilo de vida, do que uma simples prática. Escreveu e traduziu 10 livros sobre Yoga, além de editar as revistas Yoga Journal e Cadernos de Yoga e o site yoga.pro.br. Para continuar seu aprendizado, visita à Índia regularmente há mais de três décadas.
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