श्रीः
दशश्लोकी
Daśaślokī
As Dez Estrofes da Liberdade · Ādi Śaṅkarācārya
A história da Daśaślokī
A origem da Daśaślokī é uma história muito bonita e interessante. Aos oito anos de idade, o menino Śaṅkara, que seria posteriormente conhecido como Ādi Śaṅkarācārya, encontrou-se em perigo iminente de morte entre as mandíbulas de um crocodilo no rio Pūrṇā, perto da sua aldeia natal, chamada Kālaḍi, no atual estado de Kerala, sul da Índia.
Vendo o fim da sua vida como algo iminente, Śaṅkarācārya toma saṁnyāsa (voto de renúncia à vida mundana) de maneira informal, apenas pronunciando os mantras prescritos para dar esse passo. Porém, quando o crocodilo imediatamente o liberta das suas garras, o menino se depara com a necessidade de procurar um professor competente que possa oficializar formalmente o seu saṁnyāsa e iniciá-lo no conhecimento das Upaniṣads, como corresponde.
Assim, ele viaja em peregrinação para o centro da Índia, onde encontra seu guru, Śrī Govinda Bhagavatpādācārya, que se encontrava em meditação profunda em uma caverna às margens do sagrado rio Narmadā.
O jovem Śaṅkara aguarda pacientemente. Quando o mestre retorna da meditação, pergunta quem ele é. A resposta a esta simples pergunta é uma exposição sobre a natureza de Ātma, o Ser, nos belíssimos versos da Daśaślokī.
Govinda Bhagavatpāda, percebendo que Śaṅkara era um jīvanmukta, um yogin liberto, o acolhe como discípulo e dá a ele a iniciação e as boas-vindas na ordem dos saṁnyāsins, yogins renunciantes. Que o conhecimento exposto por aquela criança de oito anos nos conduza da ignorância à Verdade, ajudando-nos a compreender a nossa própria natureza ilimitada, que é Ātma.
Os temas da Daśaślokī
Ao longo do poema, Śaṅkara ensina (naturalmente, sempre em concordância com o conhecimento ancestral das Upaniṣads) que a natureza essencial do ser humano é idêntica a Brahman, a realidade absoluta e ilimitada. O verdadeiro Eu não pode nem deve ser confundido com o corpo, a mente, as emoções, experiências ou qualquer aspecto transitório da existência, já que estas experiências e conteúdos pertencem à esfera do “não-eu” (anātman).
A calma presença que é o Ser Ilimitado é apontada por palavras chamadas lakṣaṇas, tais como uno, auspicioso, eterno, livre de atributos e estando além de qualquer processo de transformação.
A obra utiliza frequentemente o método da via negativa, chamado em sânscrito neti neti (“nem isto, nem aquilo”), no qual são descartadas sucessivamente todas as identificações errôneas, condicionamentos sociais e crenças, para revelar dessa forma a Consciência Plena, Śuddha Caitanya, como a Única Realidade.
Ouça e acompanhe a Daśaślokī
A seguir, apresentamos o texto em devanāgarī e sua transliteração, com o pādapāṭha, a tradução palavra por palavra, e a tradução de cada estrofe.
Primeira estrofe: nem os elementos nem os sentidos
न भूमिर्न तोयं न तेजो न वायुः
न खं नेन्द्रियं वा न तेषां समूहः ।
अनेकान्तिकत्वात् सुषुप्त्येकसिद्धः
तदेकोऽवशिष्टः शिवः केवलोऽहम् ॥ १ ॥
na bhūmirna toyaṁ na tejo na vāyuḥ
na khaṁ nendriyaṁ vā na teṣāṁ samūhaḥ |
anekāntikatvāt suṣuptyekasiddhaḥ
tadeko’vaśiṣṭaḥ śivaḥ kevalo’ham || 1 ||
Pādapāṭha tradução palavra por palavra
na: não; bhūmiḥ: terra; toyaṁ: água; tejaḥ: fogo; vāyuḥ: ar; khaṁ: espaço; indriyaṁ: órgãos dos sentidos e das ações; vā: ou; na teṣāṁ: nenhum desses; samūhaḥ: um conjunto; anekāntikatvāt: por ser aquilo cuja natureza é instável, incerta, impermanente ou variável (i.e., o corpo-mente, os elementos, sentidos e faculdades); suṣupti: no sono; ekasiddhaḥ: aquele que está estabelecido, que permanece; tadeka: aquele Uno (i.e., o Ser); avaśiṣṭa: o que permanece, o que resta; śiva: auspicioso, propício, harmonioso, real; kevala: apenas, somente, só; aham: eu (sou).
Não sou terra, nem água, nem fogo, nem ar, nem espaço.
Não sou nenhuma faculdade nem a combinação delas,
Pois a natureza [desses elementos] é impermanente.
Sou aquele que permanece na experiência do sono.
Esse, Aquele que Permanece, o Auspicioso, o Único, eu sou. || 1 ||
Segunda estrofe: nem castas nem práticas
न वर्णा न वर्णाश्रमाचारधर्मा
न मे धारणाध्यानयोगादयोऽपि ।
अनात्माश्रयाहंममाध्यासहानात्
तदेकोऽवशिष्टः शिवः केवलोऽहम् ॥ २ ॥
na varṇā na varṇāśramācāradharmā
na me dhāraṇā dhyāna yogādayo’pi |
anātmāśrayāhaṁ mamādhyāsahānāt
tadeko’vaśiṣṭaḥ śivaḥ kevalo’ham || 2 ||
Pādapāṭha tradução palavra por palavra
na: não; varṇa: casta, etnia ou grupo social; varṇāśrama: estágios ou momentos da vida (estudante, trabalhador, aposentado e renunciante); ācāra: costume, prática, rotina diária, conduta, comportamento; dharmā: observâncias, prescrições de conduta, deveres; na me: não para mim; dhāraṇā: concentração; dhyāna: meditação; yoga: Yoga; ādayaḥ: e o resto (das práticas do Aṣṭāṅgayoga de Patañjali e outras); api: mesmo; anātmā: não-Ser, aquilo que não é Ātmā; āśraya: aquilo que depende de algo, que está conectado a algo; ahaṁ: eu (refere-se ao ego, neste caso); mama: meu, minha; adhyāsa: superimposição, falsa identificação, atribuição errônea; hānāt: por abandonar, deixar de lado, cessar; tadeka: aquele Uno (i.e., o Ser); avaśiṣṭa: o que permanece, o que resta; śiva: auspicioso, propício, harmonioso, real; kevala: apenas, somente, só; aham: eu (sou).
Não sou a posição social nem os estágios da vida.
Não sou as regras, concentração, meditação e demais.
Pois abandonei a confusão com o não-Ser, o “eu” e o “meu”.
Esse, Aquele que Permanece, o Auspicioso, o Único, eu sou. || 2 ||
Terceira estrofe: o que resta no sono profundo
न माता पिता वा न देवा न लोका
न वेदा न यज्ञा न तीर्थं ब्रुवन्ति ।
सुषुप्तौ निरस्तातिशून्यात्मकत्वात्
तदेकोऽवशिष्टः शिवः केवलोऽहम् ॥ ३ ॥
na mātā pitā vā na devā na lokā
na vedā na yajñā na tīrthaṁ bruvanti |
suṣuptau nirastātiśūnyātmakatvāt
tadeko’vaśiṣṭaḥ śivaḥ kevalo’ham || 3 ||
Pādapāṭha tradução palavra por palavra
na: não; mātā: mãe; pitā: pai; vā: nem; devāḥ: forças elementais da natureza, deuses dos elementos; lokāḥ: mundos, planetas, dimensões da criação; vedāḥ: os Vedas, o śāstra, literatura revelada, livros sagrados; yajñāḥ: rituais propiciatórios; tīrthaṁ: lugares sagrados, caminhos de peregrinação, ou ainda observâncias que devem ser seguidas; bruvanti: eles dizem [os ṛṣis (yogis-sábios), ou ainda a Śruti, a escritura sagrada como meio de conhecimento sobre Ātmā]; suṣuptau: durante o sono profundo; nirasta: rejeitado, removido, abandonado; atiśūnya: total ausência, não-existência; ātmaka: aquilo que é da natureza de ou tem o caráter de algo; -tvāt: por ser, em razão de; tadeka: aquele Uno (i.e., o Ser); avaśiṣṭa: o que permanece, o que resta; śiva: auspicioso, propício, harmonioso, real; kevala: apenas, somente, só; aham: eu (sou).
Dizem [os sábios] que na experiência do sono profundo
Não há mãe nem pai, nem deuses nem mundos manifestados,
Nem escrituras nem rituais, nem caminhos a percorrer.
Esse, Aquele que Permanece, o Auspicioso, o Único, eu sou. || 3 ||
Quarta estrofe: além de todas as escolas
न साङ्ख्यं न शैवं न तत्पाञ्चरात्रं
न जैनं न मीमांसकादेर्मतं वा ।
विशिष्टानुभूत्या विशुद्धात्मकत्वात्
तदेकोऽवशिष्टः शिवः केवलोऽहम् ॥ ४ ॥
na sāṅkhyaṁ na śaivaṁ na tatpāñcarātraṁ
na jainaṁ na mīmāṁsakādermataṁ vā |
viśiṣṭānubhūtyā viśuddhātmakatvāt
tadeko’vaśiṣṭaḥ śivaḥ kevalo’ham || 4 ||
Pādapāṭha tradução palavra por palavra
na: não; sāṅkhyaṁ: escola de filosofia Sāṅkhya; śaivaṁ: escola de filosofia Śaiva; tatpāñcarātraṁ: seguidor do Pāñcarātra, uma das formas originais do Vaiṣṇavismo; jainaṁ: religião jainista; mīmāṁsaka: seguidor da escola de filosofia Mīmāṁsā; ādeḥ: e de qualquer outra; mataṁ: doutrina; vā: nem, tampouco; viśiṣṭa: distinção, peculiaridade; anubhūtyā: através da percepção direta (anubhūti); viśuddha: puro, purificado, livre de imperfeições; ātmakatvāt: por ter a natureza de; tadeka: aquele Uno (i.e., o Ser); avaśiṣṭa: o que permanece, o que resta; śiva: auspicioso, propício, harmonioso, real; kevala: apenas, somente, só; aham: eu (sou).
Nem Sāṅkhya nem Śaiva, nem Pāñcarātra nem Jaina,
Nem Mīmāṁsaka nem outras doutrinas. Pela percepção
direta do Ser, além das distinções, minha natureza é plena.
Esse, Aquele que Permanece, o Auspicioso, o Único, eu sou. || 4 ||
Quinta estrofe: sem acima nem abaixo
न चोर्ध्वं न चाधो न चान्तर्न बाह्यं
न मध्यं न तिर्यङ् न पूर्वाऽपरा दिक् ।
वियद्व्यापकत्वादखण्डैकरूपः
तदेकोऽवशिष्टः शिवः केवलोऽहम् ॥ ५ ॥
na cordhvaṁ na cādho na cāntarna bāhyaṁ
na madhyaṁ na tiryaṅ na pūrvā’parā dik |
viyadvyāpakatvādakhaṇḍaikarūpaḥ
tadeko’vaśiṣṭaḥ śivaḥ kevalo’ham || 5 ||
Pādapāṭha tradução palavra por palavra
na: não; ca: nem, tampouco (noutros contextos, também, igualmente); ūrdhvaṁ: acima, elevado; adhaḥ: abaixo; antaḥ: dentro, interior; bāhyaṁ: fora, exterior; madhyaṁ: o meio, o que está no meio; tiryak: de través, na diagonal; pūrvā: leste, antes, próximo, perto; aparā: oeste, depois, remoto, distante; dik: direção, ponto cardinal; viyat: ar, céu, atmosfera, espaço; vyāpakatvāt: por estar invariavelmente presente, por se expandir e tudo penetrar, como o espaço; akhaṇḍa: indivisível, ininterrupto, sem partes, ilimitado; eka: uno, um, único; rūpaḥ: forma, natureza, singularidade; tadeka: aquele Uno (i.e., o Ser); avaśiṣṭa: o que permanece, o que resta; śiva: auspicioso, propício, harmonioso, real; kevala: apenas, somente, só; aham: eu (sou).
O Ser não está nem acima nem abaixo. Nem dentro nem fora.
Nem no meio nem através. Não está nem perto nem longe,
Pois está presente em tudo, como o espaço, indivisível e invariável.
Esse, Aquele que Permanece, o Auspicioso, o Único, eu sou. || 5 ||
Sexta estrofe: sem cor nem forma
न शुक्लं न कृष्णं न रक्तं न पीतं
न कुब्जं न पीनं न ह्रस्वं न दीर्घम् ।
अरूपं तथा ज्योतिराकारकत्वात्
तदेकोऽवशिष्टः शिवः केवलोऽहम् ॥ ६ ॥
na śuklaṁ na kṛṣṇaṁ na raktaṁ na pītaṁ
na kubjaṁ na pīnaṁ na hrasvaṁ na dīrgham |
arūpaṁ tathā jyotirākārakatvāt
tadeko’vaśiṣṭaḥ śivaḥ kevalo’ham || 6 ||
Pādapāṭha tradução palavra por palavra
na: não; śuklaṁ: branco, claro; kṛṣṇaṁ: escuro, negro; raktaṁ: vermelho, tingido; pītaṁ: amarelo; kubjaṁ: retorcido, curvado, recolhido; pīnaṁ: expandido, volumoso, gordo, corpulento; hrasvaṁ: baixo, curto; dīrgham: longo, extenso, estendido; arūpaṁ: que não tem forma, que não está limitado a uma forma determinada; tathā: desta maneira; jyotiḥ: luz, esplendor; ākārakatvāt: por ter a aparência ou forma de; tadeka: aquele Uno (i.e., o Ser); avaśiṣṭa: o que permanece, o que resta; śiva: auspicioso, propício, harmonioso, real; kevala: apenas, somente, só; aham: eu (sou).
Não é nem branco nem negro, nem vermelho nem amarelo.
Nem recolhido nem expandido, nem curto nem longo.
Não estando limitado pelas formas, [o Ser] é como a luz.
Esse, Aquele que Permanece, o Auspicioso, o Único, eu sou. || 6 ||
Sétima estrofe: nem mestre nem discípulo
न शास्ता न शास्त्रं न शिष्यो न शिक्षा
न च त्वं न चाहं न चायं प्रपञ्चः ।
स्वरूपावबोधो विकल्पासहिष्णुः
तदेकोऽवशिष्टः शिवः केवलोऽहम् ॥ ७ ॥
na śāstā na śāstraṁ na śiṣyo na śikṣā
na ca tvaṁ na cāhaṁ na cāyaṁ prapañcaḥ |
svarūpāvabodho vikalpāsahiṣṇuḥ
tadeko’vaśiṣṭaḥ śivaḥ kevalo’ham || 7 ||
Pādapāṭha tradução palavra por palavra
na: não; śāstā: mestre, guru, professor; śāstraṁ: escritura sagrada; śiṣyaḥ: estudante, discípulo; śikṣā: ensinamento, tema de aprendizado, instrução; ca: tampouco, nem (noutros contextos, também, igualmente); tvaṁ: você, tu; ahaṁ: eu; ayaṁ: isto, este; prapañcaḥ: a expansão do universo, o mundo, a criação; svarūpa: sua própria natureza, sua própria forma essencial; avabodha: percepção, conhecimento, capacidade de estar presente; vikalpa: diferença, diferenciação, distinção; asahiṣṇuḥ: que não admite, que não suporta; tadeka: aquele Uno (i.e., o Ser); avaśiṣṭa: o que permanece, o que resta; śiva: auspicioso, propício, harmonioso, real; kevala: apenas, somente, só; aham: eu (sou).
Não há mestre nem escritura, nem estudante nem instrução,
Nem você nem eu, nem este mundo. O conhecimento real
da própria natureza não admite distinções desse tipo.
Esse, Aquele que Permanece, o Auspicioso, o Único, eu sou. || 7 ||
Oitava estrofe: o quarto
न जाग्रन् न मे स्वप्नको वा सुषुप्तिः
न विश्वो न वा तैजसः प्राज्ञको वा ।
अविद्यात्मकत्वात् त्रयाणां तुरीयः
तदेकोऽवशिष्टः शिवः केवलोऽहम् ॥ ८ ॥
na jāgran na me svapnako vā suṣuptiḥ
na viśvo na vā taijasaḥ prājñako vā |
avidyātmakatvāt trayāṇāṁ turīyaḥ
tadeko’vaśiṣṭaḥ śivaḥ kevalo’ham || 8 ||
Pādapāṭha tradução palavra por palavra
na: não; jāgran: vigília, estar desperto, acordado; me: para mim; svapnaka: sonho, estado onírico; vā: ou, nem; suṣuptiḥ: sono profundo; viśva: o Ser, identificado circunstancialmente como aquele que está desperto; taijasa: Ātmā quando representa seu papel de sonhador; prājña: o Ser, identificado como aquele que dorme profundamente; avidyā: ignorância, nescência existencial; ātmakatvāt: por ter a natureza de; trayāṇāṁ: dos três estados de experiência: vigília, sonho e sono; turīyaḥ: o «quarto», aquele que está presente em todas as experiências e ao mesmo tempo as transcende, i.e., Ātmā, o Ser; tadeka: aquele Uno (i.e., o Ser); avaśiṣṭa: o que permanece, o que resta; śiva: auspicioso, propício, harmonioso, real; kevala: apenas, somente, só; aham: eu (sou).
Para mim, não há vigília, sonho ou sono. Nem viśva, nem taijasa, nem prājña.
Esses três estados de experiência são apenas o fruto da ignorância.
Sou Turīya, o “quarto”, o Ser presente em todas as experiências.
Esse, Aquele que Permanece, o Auspicioso, o Único, eu sou. || 8 ||
Nona estrofe: o que existe por si mesmo
अपि व्यापकत्वात् हितत्त्वप्रयोगात्
स्वतः सिद्धभावादनन्याश्रयत्वात् ।
जगत् तुच्छमेतत् समस्तं तदन्यत्
तदेकोऽवशिष्टः शिवः केवलोऽहम् ॥ ९ ॥
api vyāpakatvāt hitattvaprayogāt
svataḥ siddha bhāvādananyāśrayatvāt |
jagat tucchametat samastaṁ tadanyat
tadeko’vaśiṣṭaḥ śivaḥ kevalo’ham || 9 ||
Pādapāṭha tradução palavra por palavra
api: também, igualmente; vyāpakatvāt: por permear, por estar presente em tudo, por abranger tudo (vyāpakatva, o que tudo abrange, + o sufixo ablativo -āt, «em razão de», «causado por»); hi: pois, porque; tattva: realidade, verdade; prayogāt: aplicação, ponto de vista, meio; svataḥ: de si mesmo; siddha: realização, aperfeiçoamento, aquisição; bhāvāt: aquilo que é ou existe por si mesmo, autoexistente; ananya: único, idêntico, nenhum outro, não diferente de; āśrayatvāt: dependência, algo que depende de, ou deve recorrer a outra coisa, ou está conectado com algo; jagat: o mundo, a criação, o universo; tucchaṁ: insignificante, trivial, que não tem importância; etat: isto, isso; samastaṁ: combinado, total, unido, pleno; tadanyat: aquele outro; tadeka: aquele Uno (i.e., o Ser); avaśiṣṭa: o que permanece, o que resta; śiva: auspicioso, propício, harmonioso, real; kevala: apenas, somente, só; aham: eu (sou).
O Ser é Ilimitado. É o objetivo mais desejável.
A Realidade autoexistente que não precisa ser demonstrada.
O Ser é independente: este universo é relativo e depende dele.
Esse, Aquele que Permanece, o Auspicioso, o Único, eu sou. || 9 ||
Décima estrofe: o indizível
न चैकं तदन्यद् द्वितीयं कुतः स्यात्
न वा केवलत्वं न चाकेवलत्वम् ।
न शून्यं न चाशून्यमद्वैतकत्वात्
कथं सर्ववेदान्तसिद्धं ब्रवीमि ॥ १० ॥
na caikaṁ tadanyad dvitīyaṁ kutaḥ syāt
na vā kevalatvaṁ na cākevalatvam |
na śūnyaṁ na cāśūnyam advaitakatvāt
kathaṁ sarvavedānta siddhaṁ bravīmi || 10 ||
Pādapāṭha tradução palavra por palavra
na: não; ca: nem; ekaṁ: uno, um, único; tad: esse, aquele; anyad: outro, diferente de; dvitīyaṁ: segundo, diferente; kutaḥ: por quê?, como?, donde?; syāt: poderia ser, poderia haver; vā: ou; kevalatvaṁ: autoexistente, que existe por si mesmo, isolado, independente; akevalatvaṁ: o oposto de kevalatvaṁ, que não existe separado de outra coisa, dotado de multiplicidade; śūnyaṁ: vazio, que não é alguma coisa limitada; aśūnyaṁ: não vazio, alguma coisa limitada; advaitakatvāt: por ser aquilo cuja natureza é não-dual; kathaṁ: como?; sarva: tudo, conjunto total de alguma coisa; vedānta: síntese do conhecimento das Upaniṣads, meio de conhecimento sobre o Ser, autoconhecimento; siddhaṁ: perfeição, cúspide, cerne, fulcro, invariável, inalterável; bravīmi: poderia eu falar, dizer.
O Ser não é sequer um: como pode haver outro?
Para ele, não há isolamento nem dependência.
Não é nada nem algo, nem está sujeito à dualidade.
Como posso descrever Aquele que é o cerne do Vedānta? || 10 ||
Colofão: assim conclui-se o stotra
॥ इति श्रीमच्छङ्कराचार्यविरचितं दशश्लोकी अथवा निर्वाणदशकस्तोत्रं समाप्तम् ॥
|| iti śrīmacchaṅkarācāryaviracitaṁ daśaślokī athavā nirvāṇadaśakastotraṁ samāptam ||
Pādapāṭha tradução palavra por palavra
iti: assim, aqui termina; śrīmat: glorioso, venerável; śaṅkarācārya: o mestre Śaṅkara, Ādi Śaṅkarācārya; viracitaṁ: composto; śrīmacchaṅkarācāryaviracitaṁ: composto pelo venerável Śaṅkarācārya; daśa: dez; ślokī: conjunto de estrofes; daśaślokī: as Dez Estrofes; athavā: ou, também chamado; nirvāṇa: libertação, plenitude, extinção [do sofrimento]; daśaka: grupo de dez; stotraṁ: hino; nirvāṇadaśakastotraṁ: o hino das Dez Estrofes do Nirvāṇa; samāptam: completo, concluído.
Aqui completa-se a Daśaślokī de Śrīmad Śaṅkarācārya, chamada igualmente «As Dez Estrofes do Nirvāṇa».
Tradução de Pedro Kupfer, a partir do comentário de Swāmi Tattvavidānanda Sarasvatī.
॥ हरिः ॐ ॥
Continue lendo no yoga.pro.br
- Ekaślokī, o Verso Único de ŚaṅkaraUm breve diálogo entre Śaṅkara e um estudante sobre a luz que ilumina todas as coisas.
- BrahmajñānāvalīmālāA Guirlanda do Conhecimento do Ser: vinte estrofes atribuídas a Śaṅkara.
- Sādhana PañcakamAs cinco estrofes da prática: o caminho do estudo ao conhecimento do Ser.
- MāṇḍūkyopaniṣadA Upaniṣad dos três estados, vigília, sonho e sono, e de turīya, o quarto.
- Quem é o Ser?Aquele por quem se vê, se ouve e se fala: a pergunta a que a Daśaślokī responde.
- Bhajehaṁ BhajehaṁUm poema para ouvir e meditar: «como consciência e plenitude, sou Śiva».
- Glossário SânscritoOs termos sânscritos de Yoga, Tantra e Vedānta, com o devanāgarī e a definição de cada um.
- Todos os artigos sobre VedāntaTodos os artigos do site sobre Vedānta, os seus textos e a sua visão.


Deixe um comentário