Arte indiana com Viṣṇu

Da insensatez

Por Tereza Freire 9 de novembro de 2007 4 minutos de leitura

Muitas vezes somos movidos por atos insensatos, cuja origem não sabemos determinar… Corremos atrás de nosso próprio rabo, e praticamos atos que não queríamos, falamos coisas que não deveríamos e ferimos pessoas que não poderíamos.

Enfim, somos como que tomados, possuídos pelas emoções. Pobres de nós… Tantas vezes fora de nós… Agindo pelo instinto, pela força da gravidade que nos puxa para baixo…

No trânsito o que mais vemos são pessoas agindo de forma completamente egoísta. Fechados em seus vidros escuros, protegendo seus rostos da indignação dos outros, tornam-se arrogantes e violentos. Como se nada mais existisse além da caixa de ferro que os aliena de tudo e de todos.

A falta de solidariedade impera nas ruas da cidade. Tanta pressa para chegar aonde, fazer o que? Pressa que estressa por si só. Pressa que nos impede de olhar nos olhos, de sorrir, interagir. Pressa que pode nos matar.

Estamos nos fechando cada vez mais em nossos pequenos guetos e deixando escapar oportunidades de aprender com a diferença. Estamos olhando demais para nossos umbigos numa corrida desenfreada para vencer… mas vencer o que e de quem?

Precisamos entender que não importa onde vamos chegar, nem quando… Nós já estamos onde queremos ir. Mas cegos pelos sentidos, corremos pelas ruas a procura da felicidade, imaginando que ela está sempre fugindo de nós e que precisamos chegar antes pra pegar lugar na sua fila…

Vejo tanta gente perdida, acreditando que a felicidade vai estar no último lançamento imobiliário, automobilístico ou informático. Tanta gente se matando de trabalhar para comprar a felicidade que nunca estará nas prateleiras. Simplesmente porque se busca fora o que só existe lá dentro.

Nunca vão inventar uma tecnologia que forneça felicidade. O que se pode sintetizar são comprimidos, proibidos e permitidos, que iludem ainda mais e dão uma imensa ressaca quando o efeito passa.

Felicidade não vai vir de fora nunca… Tanta gente com medo de envelhecer, porque velhice é vendida pela indústria cosmética como falta de higiene, descuido, ignorância. Tanta gente sofrendo em mesas cirúrgicas achando que vai ser mais feliz se tiver umas gorduras a menos ou uns peitos a mais…

Tanta gente correndo riscos desnecessários em anestesias gerais, bisturis e UTIs infectadas… Tanta propaganda enganosa levando pessoas a correr risco de vida… E tanta gente enriquecendo às custas das ilusões alheias.

O que nos faz bonitos são as marcas das histórias que vivemos e que forjaram quem somos. Sem nossas rugas, seríamos um mapa sem países, livros sem palavras… E muito melhor do que chegar em algum lugar é o caminho, os amigos que fizemos, e, principalmente, as estradas erradas que tomamos e nos permitiram conhecer lugares que não havíamos programado.

Devíamos agradecer aos tropeços que damos porque são eles que nos fazem parar para pensar, porque nos despem de arrogância, porque nos fazem crescer. Bom mesmo é aprender com os passos que vamos dando, cada vez menos trôpegos… A idade tem destas gentilezas…

Aos vinte anos, vemos apenas nosso próprio umbigo; aos trinta, o umbigo do parceiro, mas aos quarenta, percebemos que todos os umbigos são iguais. Não queremos mais ser nem muito menos, ter o umbigo do outro.

E passamos a encarar o vazio com respeito e admiração, deixando que ele se preencha ao acaso. E isso é delicioso. Não mais arquitetar, não mais querer ser mais rápido que o tempo. Apenas fazer o que tem que ser feito e esperar. Não de forma indulgente, ‘com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar’, mas sabendo aceitar as transformações, inclusive físicas, e as limitações que o tempo nos trás. Para o auto conhecimento, o tempo só conta a favor.

A idade vem para nos ensinar o que a juventude não quer ver: que não somos nosso corpo.

Ao perceber isso, vemos que não somos diferentes do mendigo que pede um trocado ou do cara na cadeira de rodas que vende chicletes na rua. E passamos a andar por aí de vidro aberto, trocando sorrisos, cumprimentos e dando passagem a quem ainda tem pressa de chegar a algum lugar…

Namastê!

Tereza é yogini. Vive, estuda, escreve e pratica em São Paulo. Dirigiu e produziu, em parceria com Daisy Rocha, o documentário Caminhos do Yoga, filmado na Índia em 2003.

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2 respostas

  1. Daniel Grobman Machado

    É, gente…muitas vezes se pudessemos voltar atras com o que insensatamente falamos, fizemos, conosco e especialmente com os outros…
    Que vergonha saber que ha sempre uma melhor maneira, nem que seja com o silencio, de resolver as coisas e por diversas e diversas vezes acabamos por nos enrolar com atos impensados.
    Se pudesse dar uma definição de felicidade para minha vida neste exato momento, essa seria: Yoga na ação, consciencia sobre yamas e niamas…possibilidade de fazer o melhor conscientemente sem promover o sofrimento!!
    Então: VIVA O YOGA!!VIVA A FELICIDADE!!VIVA A UNIÃO E O SORRISO EM TODOS OS ROSTOS E CUMPRIMENTOS A ESTRANHOS E NÃO ESTRANHOS!!!
    NAMASTE!!

  2. Lindo texto!!!

    Acho engraçado como o tránsito e os carros com seus vidros escurecidos dão uma anonimidade assustadora aos condutores que, por não serem mais identificados como indivíduos, acabam por deixar aflorar as partes mais egoístas de suas personalidades.

    Pessoas fazem dentro de seus veículos coisas que provavelmente nunca fariam nas ruas, como furar fila, xingar e desrespeitar ous outros de forma geral.

    Eu também me estresso bastante dentro do carro, mas tento me controlar muito, e quando consigo, percebo que isto melhora minha vida de maneira geral. Percebo que superando meu egoísmo dentro do carro posso ser uma pessoa menos egoísta em todos os aspectos da minha vida.

    Creio que de uma forma indireta o tránsito reflete como estamos alienados e induzidos a olhar sempre para nosso proprio umbigo e procurar desenfreadamente pela felicidade que parece sempre possuir um motor melhor que o nosso.

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