Pintura do sul da Índia: Patañjali, com corpo de serpente e capelo de nāga, e Vyāghrapāda, com pernas de tigre, saúdam de mãos juntas a dança de Śiva Naṭarāja

O Yoga em 8 Passos de Patañjali

Por Pedro Kupfer 24 de julho de 1999 8 minutos de leitura

Aṣṭāṅgayoga é o nome do sistema organizado pelo sábio Patañjali . Ele consta de oito partes: yama (valores), niyama (atitudes), āsana (posturas físicas), prāṇāyāma (exercícios respiratórios), pratyāhāra (abstração sensorial),  dhāraṇā (concentração), dhyāna (meditação) e samādhi (absorção plena).

As duas primeiras partes, yama e niyama, são as prescrições e proscrições éticas: cinco atitudes que devemos adotar e cinco coisas que devemos evitar.

1. Yama

Yama significa controle ou domínio. Os yamas são o pontapé inicial. Yama são as cinco proscrições: não usar nenhum tipo de violência (ahiṁsā); falar a verdade (satya); não roubar (asteya); não desvirtuar a sexualidade (brahmacarya); e não apegar-se (aparigrāha).

Esses refreamentos pretendem purificar o yogin, aniquilar a subjetividade advinda do egocentrismo e prepará-lo para os estágios seguintes.

Desempenham o controle dos impulsos naturais, que se manifestam através dos cinco órgãos de ação (karmendriyas): braços, pernas, boca, órgãos sexuais e excretores.

2. Niyama

Niyama, as prescrições psicofísicas compreendem cinco disciplinas: a purificação (śaucan); o contentamento (santoṣa); a austeridade ou esforço sobre si próprio (tapas); o estudo de si próprio (svādhyāya); e a consagração a Īśvara, o Ilimitado (Īśvaraprānidhāna).

Estas atitudes cumprem a função de domínio sobre os cinco órgãos da percepção (jñānendriyas): olhos, ouvidos, nariz, língua e pele.

Esse controle dos sentidos aponta à organização da vida pessoal do praticante.

Saiba mais sobre os yamas e niyamas aqui: Vivendo a Ética do Yoga.

3. Āsana

Āsana, o terceiro estágio, são as posições físicas, firmes e confortáveis: ‘o āsana torna-se perfeito quando desaparece o esforço por realizá-lo, de forma que não haja mais movimentos no corpo.’

O Yogasūtra de Patañjali não é para iniciantes. É preciso que a pessoa tenha andado algum trajeto no caminho da espiritualidade para poder ter motivação e foco para aproveitar esse ensinamento.

Daí a importância do estilo dos sūtras. Cada palavra é significativa. Por exemplo, a definição de āsana: sthirasukham.

Ele não diz sukhamsthira. Porque primeiro, o corpo precisa ficar imóvel, firme, sthiram. Depois, vem sukham, o conforto.

Su significa prazer. Kha refere-se aos indriyas, órgãos dos sentidos. O que significa que os sentidos ficarão automaticamente sob controle.

A posição sentada correta permite a prática de prāṇāyāma e pratyāhāra, os próximos passos. Mas isso só é possível quando há força, firmeza e flexibilidade no corpo.

Para o yogin, o processo do āsana passa necessariamente pela construção de um corpo novo. Um corpo onde a energia não mais tem obstáculos para circular.

Aprenda a montar uma prática completa de āsanas aqui.

4. Prāṇāyāma

Prāṇāyāma é o processo de expansão da energia vital, usando a respiração.

A palavra é a combinação de dois termos: prāṇa, que significa alento, força vital, respiração, energia, vitalidade e ayāma, expansão, controle, domínio, retenção, pausa.

Segundo o Yogasūtra, ‘prāṇāyāma consiste em controlar o processo de inspirar (śvāsa) e expirar (praśvāsa).’

Na meditação, aumentamos o caudal de energia dentro do organismo. Mas, se o corpo não estiver preparado, haverá conflito.

Embora āsana e prāṇāyāma  possam ser praticados para melhorar a saúde, aumentar força e flexibilidade, etc., a intenção original dessas técnicas é equilibrar o fluxo da energia no organismo, e prepará-lo para as técnicas que seguem.

É impossível sentar para meditar se não estivermos acostumados a manter uma posição por um certo tempo, sem sentir o mínimo desconforto, sem que apareça nenhuma dor, nenhum movimento inconsciente, nenhuma dificuldade para respirar.

Estas técnicas que Patañjali nos propõe fortalecem o sistema nervoso, regulam o metabolismo, melhoram a respiração, e nos ajudam a manter sob controle as emoções, atitudes e pensamentos.

Conheça e pratique os prāṇāyāmas aqui.

5. Pratyāhāra

Pratyāhāra, a retração dos sentidos, é a faculdade de liberar a atividade sensorial do domínio das imagens exteriores. A mente é o maior obstáculo para meditar.

Entretanto, antes de começar a trabalhar nela, precisamos colocar os sentidos sob controle.

Desde o dia do nosso nascimento estamos sendo continuamente bombardeados por impressões, imagens, sons e sensações.

Essas experiências alimentam o pensamento e nos arrastam para a experiência externa. Vivemos voltados para fora.

O pratyāhāra serve para desvincular-nos dessa invasão das coisas do mundo exterior. Sem ele, é impossível alcançar a meditação.

Āsana, prāṇāyāma e pratyāhāra não são fins em si mesmos: objetivam unicamente dar ao praticante uma infraestrutura física e mental firme para que possa estabelecer-se na compreensão de si mesmo como Ilimitado, que é a destino da jornada.

Através destas técnicas preliminares, úteis também para superar os obstáculos iniciais (dúvida, preguiça, angústia, dispersão, etc.), o yogin  se prepara para o Yoga em si, que começa com as técnicas de contemplação.

Saiba mais sobre pratyāhāra aqui: O Elo Perdido do Yoga.

6. Dhāraṇā

Dhāraṇā, a concentração em um ponto só, se faz para limitar a atividade da consciência ao interior da imagem sobre a que se está meditando.

Essa unidirecionalidade da consciência não pode conseguir-se sem prática regular.

Paradoxalmente, na prática de concentração não devemos forçar as coisas, não devemos entrar em conflito com a nossa mente.

Uma concentração forçada não é real, pois só provocará mais tensão.

7. Dhyāna

Dhyāna, a meditação em si, consiste em parar o fluxo do pensamento.

A meditação é o resultado espontâneo da concentração da consciência, e constitui a preparação necessária para atingir o objetivo do Yoga, que é mokṣa, a libertação.

A meditação não pode ensinar-se. A rigor, as instruções sobre como meditar terminam na concentração. Depois, o praticante deve continuar sozinho.

Todas as técnicas levam você a esse estado, desde que praticadas com regularidade. Não há palavras para descrever dhyāna.

A única coisa que podemos dizer é que vale a pena o esforço. Se você não experimentou esse estado, as palavras só irão provocar confusão e intelectualização.

Ou seja, você vai ficar de fora de experiência real. Se você tiver a experiência, saberá que as palavras sobram, e que não podem ser usadas para descrevê-la.

Conheça a variedade de práticas meditativas da tradição do Yoga nesta série de quatro artigos.

8. Samādhi

Samādhi é a absorção meditativa, final do processo gradual de introspeção promovido pelas práticas. Esse, no entanto, não é o objetivo final do Yoga, embora no samādhi seja possível realizar a contemplação de Puruṣa, a Consciência Ilimitada.

Patañjali descreve vários graus diferentes dessa meditação profunda. Sugerimos a leitura deste artigo se quiser conhecer essas práticas: O samādhi e o pensar harmonioso.

Patañjali

O que é mokṣa, o objetivo do Yoga?

Mokṣa significa liberdade. Mokṣa é uma apreciação da vida e da Ordem de Īśvara na qual a pessoa se estabelece na visão de si mesmo como uma manifestação do Ilimitado.

Leia este texto de Swāmi Dayānanda para saber mais sobre o objetivo do Yoga: O que é Mokṣa?

Isso se traduz numa apreciação do que chamamos Realidade na qual o praticante percebe que esse Ilimitado não está apenas manifestado como si mesmo, mas como todos e cada um dos elementos da natureza, como todas e cada uma das criaturas vivas.

Não vemos a realidade como ela é, mas como somos nós mesmos. Mas o que é a realidade? O professor de Yoga Ram Dass explica:

“Crescemos com um plano de existência que denominamos o real. Identificamo-nos por inteiro com essa realidade, tida por absoluta, e descartamos as experiências não compatíveis com ela como sonhos, alucinações, insanidade ou fantasia.

“O que Einstein demonstrou na física aplica-se também aos outros aspectos do cosmos: toda realidade é relativa.

“Cada realidade é verdadeira apenas dentro de certos limites; é apenas uma versão possível do modo de ser das coisas. Sempre há múltiplas versões da realidade.

“Despertar de uma realidade relativa é reconhecer-lhe a natureza relativa. A meditação é um instrumento para fazer precisamente isso.’

Os últimos três estágios do Yoga de Patañjali, concentração, meditação e samādhi constituem a técnica tríplice chamada samyama e são conhecidos como antarāṅga, membros internos, por oposição aos anteriores (bahirāṅga = externos), que regem a vida exterior.

Isto, porque no samyama não se precisa nenhuma técnica fisiológica ou energética nova. A partir daqui, tudo acontece da pele para dentro.

॥ हरिः ॐ ॥

Assista esta aula sobre o Yogasūtra
de Patañjali com o Pedro

Continue a leitura no yoga.pro.br: Aṣṭāṅga, o Yoga em 8 Passos de Patañjali · Aprendendo com o Yoga a arte de saber existir · Equanimidade ou indiferença?
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Pedro Kupfer

Pedro nasceu no Uruguai em 1966. Conheceu o Yoga na adolescência e pratica desde então. Aprecia o Yoga mais como uma visão do mundo que inclui um estilo de vida, do que uma simples prática. Escreveu e traduziu 10 livros sobre Yoga, além de editar as revistas Yoga Journal e Cadernos de Yoga e o site yoga.pro.br. Para continuar seu aprendizado, visita à Índia regularmente há mais de três décadas.
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4 respostas

  1. Reinaldo Clementeli

    Muito bom este Yoga.
    Traz muitos benefícios para o
    Corpo e a alma.
    Uso como um dos meus mantras Ho oponopono.
    Yama niyama asana pranayama pratyhara samadhi.
    Eu sou grato.

  2. Verônica Peixoto de oliveira

    Foi muito bom estado informações.grata.veve

  3. Tomás coelho

    Para conseguir postura-respiraçao-abstraçao é necessário o treinamento de um mestre necessariamente?

  4. Loreci Soares da Silveira

    Estou começando no Yoga, por isso toda informação é bem vinda. Ótimo texto.

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