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Yoga, esporte olímpico: desta vez não é trote

A piada de 1º de Abril virou realidade: há quem queira levar o Yoga às Olimpíadas. O que o Yoga tradicional diz sobre medalhas, juízes e pódios.

· 10 minutos de leitura >
Pintura do Śrī Tattvanidhi: um yogi em sarpāsana, deitado de bruços, com o tronco erguido sobre os braços estendidos.

No dia 1º de abril de 2024, publicamos na nossa conta do Instagram uma notícia bombástica: o Yoga tinha sido aceito como modalidade olímpica nos Jogos de Paris. Muitos riram, alguns acreditaram, outros ficaram furiosos. Era, claro, a nossa piada do Dia da Mentira.

Dois anos e meio depois, a piada envelheceu mal. Não porque tenha perdido a graça, mas porque a realidade decidiu imitá-la. Desta vez não é trote: há gente muito séria, com muito dinheiro e com o apoio e os recursos do governo indiano trabalhando a tempo completo para colocar o Yoga no pódio olímpico.

E a imprensa internacional já reparou: em 18.10.2026, o excelente jornal britânico The Guardian publicou uma longa reportagem escrita por Anita Chaudhuri sobre a polêmica do Yoga competitivo, com um título que resume tudo: “Isto é horrível. Isto é loucura: a polêmica em torno do Yoga competitivo”. A BBC Radio 4, por seu lado, noticiou em 28 de outubro que, “no início deste ano, o governo indiano afirmou que defenderia sua inclusão nos Jogos Olímpicos, em meio à candidatura do país para sediar os Jogos de 2036”. Portanto, chegamos naquele futuro distópico, grotesco e absurdo que imaginamos na nossa piada.

O circo já está montado

Em junho deste ano, a cidade de Ahmedabad sediou o primeiro Campeonato Mundial de Yogāsana:

  • 5dias de competição
  • 522atletas
  • 79países
  • 2.000espectadores no estádio
  • 269páginas de regulamento
  • 102medalhas de ouro para a Índia, a anfitriã

Houve transmissão ao vivo na televisão nacional. O regulamento inclui, acredite, uma política antidoping. Para Yoga. A trilha sonora é bhangra a todo o volume, os figurinos têm lantejoulas, e uma das medalhistas de ouro apresenta-se no Instagram como “a menina-elástico da Índia”. A Índia levou para casa 114 medalhas, 102 delas de ouro, e o primeiro-ministro Narendra Modi não deixou dúvidas sobre o objetivo: “O Yogāsana vai garantir o seu lugar no cenário internacional, seja nas Olimpíadas ou noutros eventos multiesportivos” (NBC).

Competições de āsana não são novidade na Índia: a primeira foi em 1973, em Calcutá. A novidade é o espetáculo global. O governo indiano já anunciou que vai lutar pela inclusão do yogāsana nas Olimpíadas, de olho na candidatura do país para 2036. O caminho traçado passa pelos Jogos da Commonwealth de 2030, na Índia, onde o yogāsana deve entrar como esporte “indígena”, e depois por uma estreia como esporte de demonstração em Brisbane, em 2032. Para ser reconhecida pelo Comitê Olímpico Internacional, uma modalidade precisa de pelo menos 50 federações nacionais em três continentes. A World Yogāsana já tem 40. Falta pouco, portanto.

Nas nossas temporadas recentes em Rishikesh, fomos testemunhas em primeira mão desse frenesi das competições de yogāsana: meninos e meninas contorcendo-se até a exaustão ao som de música alta e estridente, para ganhar uma medalha nos ghats (escadarias) do sagrado Gaṅgā, onde antigamente os yogis meditavam em silêncio.

Nem na Índia todos aplaudem. Em julho, o Tribunal Superior de Délhi anulou o reconhecimento da Yogāsana Bharat como federação nacional, a partir de uma ação movida pela Federação de Yoga da Índia: o título tinha sido concedido em 2020, quando a entidade existia havia apenas três meses. Está em curso um novo processo de seleção. E, entre as próprias federações de Yoga esportivo, há tantas organizações a fazer os seus campeonatos sem se entenderem que uma das juízas ouvidas pelo Guardian, Almania Colombo, lamenta: “Embora Yoga signifique união, ainda há muito ego desnecessário.” Pois é.

Nas palavras do presidente

O homem por trás deste projeto é Udit Sheth, presidente da firma Yogāsana Bharat, empresário do ramo da construção e gestão de estádios. Ao Guardian, falou com uma franqueza que agradecemos. Vale a pena ponderar sobre as suas afirmações com calma, uma de cada vez.

“O meu trabalho no esporte e a minha própria prática de Yoga despertaram em mim o interesse em como podemos empacotar uma herança antiga da maneira certa para levá-la às Olimpíadas.”

Udit Sheth

Empacotar. A palavra é dele, não nossa. O Yoga não é uma herança para empacotar, é um caminho para percorrer. O seu objetivo, desde que o mundo é mundo, chama-se mokṣa, a liberdade. Patañjali define o Yoga logo no segundo sūtra: yogaścittavṛttinirodhaḥ, “Yoga é a cessação da [identificação com] os conteúdos da psiquê” (Yogasūtra I:2). Uma medalha de ouro não aquieta a mente de ninguém. Pelo contrário: é das coisas que mais a agitam, antes, durante e, sobretudo, depois.

“Cunhamos a palavra yogāsana para descrever isto, e não yoga. O Yoga é uma prática muito ampla, que inclui meditação e concentração. O āsana é apenas uma das oito pétalas do Yoga.”

Udit Sheth

Aqui o Sr. Sheth tem toda a razão, e é por isso mesmo que este absurdo não se sustenta. Se aquilo não é Yoga, por que essa insistência em vendê-lo como Yoga? Por que não chamar-lhe ginástica, que é ótima, tem as suas federações e está nas Olimpíadas desde 1896? As oito pétalas da flor de lótus de Patañjali não são um cardápio do qual se escolhe um prato: são um processo lento e paciente, em que cada passo está conectado com o anterior e o seguinte.

Os yamas e os niyamas, a ética e a disciplina pessoal, vêm antes do āsana, e não por acaso. Ao āsana, Patañjali dedica uma única linha: sthirasukham āsanam, “o āsana é firme e confortável” (Yogasūtra II:46). A Haṭhayoga Pradīpikā diz que ele dá estabilidade, saúde e leveza ao corpo (I:17), para que a pessoa possa sentar-se em paz e meditar. O āsana prepara o corpo para o silêncio, não para o espetáculo. Uma postura feita para impressionar juízes deixou, por definição, de ser sukha.

“Se o America’s Got Talent e o Britain’s Got Talent podem passar na televisão e ter tanta audiência, estes atletas de yogāsana também podem fazer maravilhas.”

Udit Sheth

Os programas de calouros procuram quem tem talento. O Yoga ensina que você não é aquilo que tem, nem aquilo que faz, nem aquilo que os outros acham de você. Questão de foco.

“Quando você vê os competidores, é quase como estar numa passarela de moda. Há lantejoulas, e as atletas levam a maquiagem a outro nível. As pessoas querem ficar bem no Instagram. […] A multidão torna-se o juiz.”

Udit Sheth

A resposta mais clara veio de Divya Kohli, ótima professora de Yoga indiana radicada no Reino Unido, também ouvida pelo Guardian:

“As bases do Yoga exigem que você deixe de ser servo do seu ego. Isso significa não procurar aprovação externa. Medir como alguém faz uma postura pela dificuldade física e dar pontos por isso? Isto é horrível. Isto é loucura.”

Divya Kohli

O Yoga nunca precisou de multidões. Na Bhagavadgītā, Śrī Kṛṣṇa faz uma afirmação daquelas de deixar os cabelos de qualquer marqueteiro capitalista em pé:

मनुष्याणां सहस्रेषु कश्चिद्यतति सिद्धये ।
यततामपि सिद्धानां कश्चिन्मां वेत्ति तत्त्वतः ॥ ७.३ ॥

manuṣyāṇāṁ sahasreṣu kaścid yatati siddhaye |
yatatāmapi siddhānāṁ kaścinmāṁ vetti tattvataḥ || VII:3 ||

Entre milhares de mortais, poucos se esforçam para atingir a perfeição, e dentre os que conseguem atingi-la, poucos são os que verdadeiramente Me conhecem. || VII:3 ||

O Yoga nunca foi um fenômeno de massas, nem de audiência. O sucesso no Yoga não se mede em número de seguidores, ingressos vendidos, popularidade ou fama. É um caminho de poucos e para poucos, não porque seja reservado a uma elite, mas porque exige maturidade, honestidade e um desejo genuíno de liberdade. Uma multidão de torcedores pode ser juíza de muita coisa. Do Yoga, certamente não.

“A única maneira de fazer os jovens do mundo entenderem o modo de vida yóguico é dar-lhes algo emocionante, tirá-lo da espiritualidade e levá-lo para a emoção, para o esporte.”

Udit Sheth

Esta frase merece um troféu. Numa entrevista à WION, um canal indiano de notícias em inglês, em 2025, ele já tinha dito algo similar: “Não diluímos os princípios do Yoga: tiramo-lo da espiritualidade e levamo-lo para o esporte” (WION). É como dizer que não diluímos o vinho, só lhe tiramos a uva, o álcool e a cor. E a ideia de que os jovens precisam de mais emoção para chegar à serenidade é, no mínimo, curiosa, e cheira a rançoso paternalismo. Os nossos jovens vivem afogados em estímulos, em telas, em rankings, em likes. Se há alguma coisa que o Yoga lhes pode oferecer, é exatamente o contrário: um lugar onde ninguém os julgue ou pressione.

“Se qualquer esporte for feito do jeito certo, a competição é interior. Sou eu contra mim, não eu contra você. É o quão bom sou hoje em comparação com o quão bom era há duas semanas.”

Udit Sheth

Se a competição é interior, para que servem os juízes, o placar, o pódio e as medalhas? Na Gītā, Kṛṣṇa ensina a agir sem apego aos frutos da ação: karmaṇy evādhikāras te mā phaleṣu kadācana, “você tem escolha sobre a ação, nunca sobre os seus resultados” (II:47). O esporte de competição é um sistema inteiro organizado em torno do resultado. E até o “eu contra mim” é uma armadilha: o Yoga não nos convida a vencer uma versão anterior de nós mesmos, mas a descobrir aquilo que em nós nunca esteve em disputa: Ātma, o ser calmo e invariável.

“Penso que há a oportunidade de criar para o Yoga um sistema como a FIFA, em que cada país tem a sua própria federação. […] Não queremos acabar como o breakdance: chegou aos Jogos de Paris em 2024, mas acabou ali.”

Udit Sheth

A FIFA, aquela instituição que é um baluarte da ética, da democracia e dos direitos humanos, como modelo para a futura gestão do Yoga competitivo: aqui, confesso, nem a nossa equipa de humor do 1º de Abril teria ido tão longe. E repare na ironia do detalhe: Paris 2024 foram precisamente os Jogos da nossa piada.

Yoga é o contrário de competir

A competição, intrinsecamente, precisa de um outro a ser vencido. A visão não-dual, ensinada tanto pelo Tantra quanto pelo Vedānta, culmina na descoberta de que não existe esse tal desse “outro”. A Īśopaniṣad diz que quem vê todos os seres em si mesmo, e a si mesmo em todos os seres, já não sente aversão por ninguém (mantra 6). Como é que, desde o ponto de vista absoluto (pāramārthika), se compete com alguém que, essencialmente, é você mesmo?

Os yamas também não ajudam muito os cartolas. Ahiṁsā, não violência, começa pelo próprio corpo: forçar colunas, quadris e joelhos de crianças e adolescentes até ao limite para ganhar um troféu é exatamente o oposto disto. Aparigraha, não acumular, combina mal com colecionadores de medalhas e taças. E santoṣa, o contentamento, não sobrevive a um quadro de pontuações, nem traz motivação alguma sequer para entrar numa competição, de qualquer tipo.

Quer mais? Há campeonatos ainda mais esquisitos

Se você acha que o Yogāsana de competição é o limite do absurdo, saiba que a criatividade dos ser-humaninhos aspirantes a cartolas do Yoga é mais delirante ainda.

Em 2011, num ginásio de Amstelveen, nos arredores de Amsterdã, realizou-se o Campeonato Mundial de Jalaneti (lavagem nasal), com eliminatórias, semifinais e finais nas categorias de 5 e 10 litros. O patrocinador era, não por acaso, uma marca de spray nasal. O jalaneti, um dos ṣaṭkarmas ou processos de purificação mencionados na Haṭhayoga Pradīpikā, serve para limpar as narinas e facilitar o fluxo da respiração, com o objetivo de praticar prāṇāyāma sem impedimentos.

Ninguém, em toda a literatura do Haṭha, sugeriu que fosse uma boa ideia medir a quantidade de água que passa pelo nariz de uma pessoa. Fazer esse tipo de prática extrema (i.e., passar 10 litros de água pelo estreito canal das narinas no mínimo tempo possível) é perigoso e contraproducente.

Ainda no cardápio das esquisitices grotescas, temos os campeonatos do chamado “voo yóguico”, da Meditação Transcendental, em que os participantes saltam sentados em padmāsana sobre colchões, em provas de altura, de distância e de obstáculos. O campeonato mais recente aconteceu em maio de 2026. Veja por si mesmo:

Esse “voo do Yoga”, basicamente, consiste em três coisas: saltar feito uma perereca, forçar no rosto uma expressão de felicidade e, finalmente, destruir alegremente os próprios meniscos em nome da espiritualidade competitiva. Rir disto faz bem. Mas convém lembrar que, há poucos anos, também riríamos de quem nos dissesse que o Yoga ia ter uma Super Liga televisiva.

Sobre piadas e ameaças reais

Voltando à nossa piada de 2024: em primeiro lugar, ela foi uma brincadeira de 1º de Abril. Em segundo lugar, foi um lembrete muito sério.

Queríamos alertar para um fato real: a pretensão daquelas instituições que mencionamos no início de tornar o Yoga um esporte olímpico. Escolhemos o 1º de Abril para trazer o tema à tona de maneira bem-humorada, porque o humor é uma forma saudável de sublimar os medos e as preocupações que temos como sociedade. E, para qualquer amigo ou amiga do Yoga, praticante ou professor, isto é sério e preocupante.

Humor não tem nada a ver com notícias falsas. As notícias falsas têm como propósito enganar as pessoas para obter dividendos políticos, o que nunca foi o nosso caso.

A instituição que citamos na época, a IYSF, Federação Internacional de Yoga Desportivo, existe mesmo, com sede na Suíça e tudo: iysf.org. Essas pessoas pretendem de fato tornar o Yoga um esporte competitivo e estão há anos a articular as coisas nessa direção.

Existem campeonatos de Yoga não apenas na Índia, mas espalhados pelo planeta, com circuitos regionais que desembocam em campeonatos mundiais dos chamados “Yoga olímpico”, “Yoga desportivo” e “Yoga artístico”. Uma busca rápida pela internet revela páginas e páginas de eventos deste tipo. Já vimos campeonatos de Yoga na Índia, e sabemos que existem aqui em Portugal, na Argentina e no Uruguai, dentre outros lugares.

As instituições que promovem esses campeonatos contam com o apoio do governo da Índia, por meio do Ministério AYUSH (Ayurveda, Yoga e Naturopatia, Unani, Siddha e Homeopatia). O governo nacionalista hindu usa esses grupos para influir no mundo por meio do soft power que o Yoga possibilita. O problema é a definição de Yoga que estas pessoas esgrimem.

Quando decidimos fazer uma piada a partir desta situação, foi porque ela é, de fato, uma farsa. Mas uma farsa levada muito a sério pelos pretensos cartolas do Yoga. Se você for pensar, a piada já estava quase pronta: o projeto desses burocratas é mesmo levar o Yoga a competições de nível olímpico, com o circo da exposição mediática e todo o resto.

Compreenda, por favor, que, com estas palavras, não pretendemos agredir ninguém, mas denunciar a situação farsesca de quem distorce o Yoga para encher os bolsos. Essas pessoas não estão preocupadas com mokṣa, nem com autoconhecimento, nem com saúde, nem com crescimento pessoal, nem com ética. O negócio delas é o vil metal.

Portanto, caras amigas e amigos do Yoga, não estamos a rir da desgraça alheia: estamos a rir da nossa própria desgraça. E a pedir que, na próxima vez que alguém vier falar para você sobre campeonatos e medalhas de Yoga, você se lembre das verdadeiras palavras de Kṛṣṇa: “dentre milhares, poucos são os que verdadeiramente Me conhecem”.

Tudo de bom.

॥ हरिः ॐ ॥

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Pedro nasceu no Uruguai em 1966. Conheceu o Yoga na adolescência e pratica desde então. Aprecia o o Yoga mais como uma visão do mundo que inclui um estilo de vida, do que uma simples prática. Escreveu e traduziu 10 livros sobre Yoga, além de editar as revistas Yoga Journal e Cadernos de Yoga e o site yoga.pro.br. Para continuar seu aprendizado, visita à Índia regularmente há mais de três décadas.
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