श्रीः
गुरुवन्दनम्
Guruvandanam
Comentário de Swāmi Dayānanda
Os versos
ॐ श्रुतिस्मृतिपुराणानाम् आलयं करुणालयम् ।
नमामि भगवत्पादं शङ्करं लोकशङ्करम् ॥ १ ॥
oṁ śrutismṛtipurāṇānām ālayaṁ karuṇālayam |
namāmi bhagavatpādaṁ śaṅkaraṁ lokaśaṅkaram || 1 ||
शङ्करं शङ्कराचार्यं केशवं बादरायणम् ।
सूत्रभाष्यकृतौ वन्दे भगवन्तौ पुनः पुनः ॥ २ ॥
śaṅkaraṁ śaṅkarācāryaṁ keśavaṁ bādarāyaṇam |
sūtrabhāṣyakṛtau vande bhagavantau punaḥ punaḥ || 2 ||
ईश्वरो गुरुरात्मेति मूर्तिभेदविभागिने ।
व्योमवद्व्याप्तदेहाय दक्षिणामूर्तये नमः ॥ ३ ॥
īśvaro gururātmeti mūrtibhedavibhāgine |
vyomavadvyāptadehāya dakṣiṇāmūrtaye namaḥ || 3 ||
Contexto
Este ensinamento tem um fluxo contínuo de mestre para estudante, que por sua vez se torna um professor para seus estudantes. Esse fluxo ininterrompido, junto com o método de transmissão do ensinamento forma o paramparā. Esse método é uma forma de revelar uma visão.
Não é uma filosofia nem uma teologia, mas uma forma de resolver um problema aparente mas que em verdade não existe. É muito importante reconhecer que este é um método de ensinamento que requer a presença de um professor, da mesma maneira que você não pode se tornar um psicoterapeuta apenas lendo livros sobre terapia.
Primeira estrofe
O elo que nos conecta com essa tradição é chamado Ādi Śaṅkarāchārya. É sobre ele que fala o mantra. Śaṅkara nos conecta com a fonte do conhecimento. O corpo de conhecimento é o Veda, chamado aqui Śruti. A Gītā e as Purāṇas, onde ele também está presente, são chamadas conjuntamente Smṛti.
Essas três coleções de ensinamento, o Veda, a Gītā e as Purāṇas, estão simbolicamente representados por Śaṅkara: śrutiḥ smṛtiḥ purāṇānām ālayaṁ. Śaṅkara é considerado o altar da compaixão, karuṇālayam.
Śaṅkara escreveu comentários sobre as dez principais Upaniṣads, sobre a Gītā e deu outras importantes contribuições. O mantra diz namāmi bhagavadpādaṁ śaṅkarāṁ lokaśaṅkaram. Bhagavadpāda é o nome do mestre de Śaṅkara.
É por isso que às vezes ele é chamado Śaṅkarabhagavadpāda. Lokaśaṅkaram significa que Śaṅkara é aquele que traz o que é auspicioso para o mundo. Este é um verso muito bonito que nos conecta com esse mestre especial.
Segunda estrofe
Vyāsa, chamado aqui nesta estrofe de Bādarāyaṇa, foi um elo especial dentro do paramparā. Ele foi inspirado por Viṣṇu, aludido pelo nome Keśava neste verso, e nos legou o Brahmasūtra. Sūtra é um estilo de escrita altamente sucinto, que ensina muito através de poucas palavras.
O Brahmasūtra é também chamado Vedāntasūtra. Há diversos comentários do Brahmasūtra. Um bhāṣya é o comentário de um sūtra. Tika é o comentário do comentário. Depois há outros adendos, chamados tipānis, que são comentários dos comentários, ou notas aos comentários.
Śaṅkara escreveu o sūtrabhāṣya, o comentário do Brahmasūtra. A minha saudação, vande, repetidas vezes, punaḥ punaḥ, a esses três, Viṣṇu, Vyāsa e Śaṅkara.
Terceira estrofe
Īśvarogururātmeti mūrttibheda vibhāgine | vyomavad-vyāpta dehāya dakṣiṇāmūrttaye namaḥ: minha saudação a Dakṣinamūrti. Dakṣinamūrti significa “aquele que olha para o sul”. Pois, quando você está desnorteado, procura o norte, e lá está Śiva.
Este Dakṣinamūrti se apresenta na forma de três manifestações, īśvarogururātmeti: Īśvara, o guru e Ātma. Mūrttibheda vibhāgine, aparentemente é três, mas é só um em realidade. Aquele que aparentemente é dividido, como o espaço, mas que está em todos os lugares ao mesmo tempo: vyomavad-vyāpta dehāya.
Tradução de Pedro Kupfer, sobre uma palestra de Swāmijī ministrada em Rishikesh, no Dayānanda Āśram, em 1 de Abril de 2013.
Os mestres e a tradição
O Guru Vandanam serve para expressar agradecimento e também para receber a bênção dos mestres no início de cada sessão de estudos. Estes versos honram o gurusiśya paramparā, a transmissão do autoconhecimento através das gerações, que se preserva e transmite de mestre a discípulo há milênios. A compreensão desta invocação nos ajuda, igualmente, agora, a contextualizar e entender donde vem o conhecimento e a visão libertadora do Yoga.
Vandanam quer dizer saudação. A palavra guru significa literalmente “pesado”, em sânscrito, e se refere naturalmente, não ao peso do corpo do professor, mas ao peso que suas palavras têm. Isso acontece pois, quando um mestre fala, o faz desde a linhagam do paramparā, e como representante da mesma. Assim, a palavra, que já sabemos ser fundamental na transmissão do conhecimento, tem peso e relevância, quando é o meio de conhecimento ou a ferramenta pela qual a visão da não-dualidade é transmitida.
Não é uma filosofia nem uma teologia, mas, como diz Swāmi Dayānanda, meu mestre, é “uma forma de resolver um problema aparente mas que em verdade não existe”. A transmissao dessa visão não pode acontecer apenas lendo livros, ou simplesmente praticando técnicas. O método de ensinamento requer a presença e o acompanhamento do professor.
Nossos primeiros mestres foram os nossos pais: eles nos ensinaram a caminhar, a comer e a falar, e depois nos transmitiram os valores fundamentais. Também nos ensinaram a viver e a distinguir o certo do errado. Em suma, nos educaram, no sentido mais amplo da palavra.
Depois tivemos os nossos professores na escola, que nos ensinaram a pensar, a nos comunicar, e nos revelaram as diversas disciplinas e ciências, que por sua vez nos mostraram possibilidades e vocações. Alguns desses professores da nossa infância ou adolescência podem igualmente ter nos ensinado que vale a pena compartilhar, a compreender donde viemos e a conviver em harmonia.
Se tivemos mestres para isso tudo, porque não deveríamos tê-los para aprender Yoga? Não há Yoga sem professor. Não podemos aprender Yoga sozinhos. O risco é muito grande, tanto em termos da correta compreensão da visão e do que o Yoga propõe em termos de estilo de vida, quanto em termos de manter a integridade física, emocional e mental durante as práticas.
Esse papel do professor é muito importante, pois se não tivermos alguém para esclarecer nossas dúvidas, poderemos nos colocar em risco ou fazer a coisa errada, ainda que nossas intenções sejam as melhores.
O elo que nos conecta com essa tradição é o mestre Ādi Śaṅkarāchārya. É sobre ele que fala o mantra no começo. Śaṅkara nos conecta com a fonte do conhecimento. O corpo de conhecimento é o Veda, apontado aqui pela palavra Śruti. Śruti quer dizer “Aquilo que foi Escutado”. Essa palavra define o núcleo inicial da literatura do Yoga: os quatro Vedas e as dez principais Upaniṣads que estão associadas a eles.
Smṛti significa “memória”, e se refere aos textos tradicionais posteriores aos Vedas e as Upaniṣads, mas que transmitiram essa mesma visão, numa linguagem mais acessível às pessoas da época clássica da antiguidade da Índia. A Bhagavadgītā, que já mencionamos mais de uma vez, e as Purāṇas, outros textos antigos onde o ensinamento também está presente, são chamadas conjuntamente Smṛti.
Texto do curso Mantra Yoga, de Pedro Kupfer.
Ouça na Rádio Havelī: Guru Vandanam · Guru Vandanam (śloka)
॥ हरिः ॐ ॥
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