Miniatura da Jogapradīpikā (c. 1830): Yogi sentado sobre a pele de búfalo, com um discípulo junto ao fogo

Saha Nāvavatu: a Invocação da Paz entre Mestre e Discípulo

Por Pedro Kupfer 7 de novembro de 2026 4 minutos de leitura

श्रीः

सह नाववतु

Saha Nāvavatu

A invocação da paz entre mestre e discípulo · Pedro Kupfer

O Saha Nāvavatu aparece na Taittīriya Upaniṣad, um dos textos mais antigos, lindos e completos da tradição do Yoga.

O mantra

ॐ सह नाववतु ।
सह नौ भुनक्तु ।
सह वीर्यं करवावहै ।
तेजस्वि नावधीतम् अस्तु मा विद्विषावहै ॥
ॐ शान्तिः शान्तिः शान्तिः ॥

oṁ saha nāvavatu |
saha nau bhunaktu |
saha vīryaṁ karavāvahai |
tejasvi nāvadhītam astu mā vidviṣāvahai ||
oṁ śāntiḥ śāntiḥ śāntiḥ ||

Ouça na Rádio Havelī: Saha Nāvavatu

O sentido das palavras

Esse mantra está no modo de conjugação dual, que não temos em português. Esse modo dual se refere ao praticante motivado para aprender e ao professor que ensina. Alude à relação estudante-professor (śiṣyācārya), e ao fato de que o Yoga se transmite individualmente, de pessoa para pessoa, ainda quando estamos num grupo grande, ou fisicamente distantes.

Embora em muitas ocasiões haja um professor e muitos estudantes, a transmissão do conhecimento acontece de modo pessoal, entre quem ouve e quem expõe a visão libertadora do conhecimento. Então, a tradução deste mantra diz assim:

“Oṁ. Que você e eu estejamos unidos e protegidos por ele. [Ele é Īśvara, o Ser Ilimitado]. Que você e eu estejamos unidos e bem nutridos por ele. Que trabalhemos e progridamos juntos. Que nosso conhecimento seja realizador. Que nunca confundamos nossos papéis. [Ou seja, que não haja desentendimentos entre nós]. Que haja paz em relação à natureza, que haja paz entre os homens, que haja paz em cada um”.

A palavra que abre o mantra, saha, é então o pronome do modo dual que aponta para você e eu ao mesmo tempo. O mantra diz “que ele [Īśvara] abençoe você e eu com boa nutrição”. Nutrição, aqui, é uma palavra que se refere ao autoconhecimento, à visão clara sobre o Si Mesmo e do mundo. A missão do professor é facilitar a compreensão das coisas para aquele que está motivado para a libertação.

Saha vīryaṁ karavāvahai significa que o conhecimento nos fortaleça, nos realize e ajude a viver o modo de vida do Yoga no cotidiano que deriva da visão libertadora que ele nos traz.

Tejasvi nāvadhītamastu quer dizer que o nosso conhecimento brilhe com o resplendor do fogo, que nos ilumine e faça a diferença na maneira em que vivemos a vida. Que possamos de fato não apenas conhecer mas também assumir a nossa identidade real, indivíduo além dos condicionamentos e crenças que bloqueiam a percepção do Ilimitado que realmente somos.

Ma vidviṣāvahai: “Que não haja dissonância entre nós”. Estas palavras aparecem aqui pois se reconhece que, eventualmente, pode surgir um problema de transferência de algum tipo de frustração da parte do aluno em relação ao professor.

Que não haja discussão. Que não haja confusão em relação aos papéis que cada um de nós representa. Depois, diz-se três vezes śāntiḥ, paz: que tenhamos paz em relação ao que vem de fora, àquilo sobre o que não temos controle e ao que já está aqui na gente.

Imagem de destaque: Yogi sentado sobre a pele de búfalo, com um discípulo junto ao fogo. Jogapradīpikā, c. 1830, British Library (domínio público).

॥ हरिः ॐ ॥

Nesta série: Fundamentos do Mantra Yoga

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Pedro Kupfer

Pedro nasceu no Uruguai em 1966. Conheceu o Yoga na adolescência e pratica desde então. Aprecia o Yoga mais como uma visão do mundo que inclui um estilo de vida, do que uma simples prática. Escreveu e traduziu 10 livros sobre Yoga, além de editar as revistas Yoga Journal e Cadernos de Yoga e o site yoga.pro.br. Para continuar seu aprendizado, visita à Índia regularmente há mais de três décadas.
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