Início Artigos Pratique Respire e Relaxe

Os Três Pilares da Vida Boa: Alimentação, Exercício e Sono

Alimentação, exercício e sono, os três pilares de Śivānanda. Por que o sono é um estado ativo, o que o cérebro faz enquanto dormimos e como guarda a memória.

· 5 minutos de leitura >
Miniatura da Jogapradīpikā (c. 1830): yogi em meditação diante das colinas

O Yoga é uma espiritualidade, ou seja, uma maneira de olhar para a vida que não começa nem termina nos seus aspectos materiais. Embora não negue a matéria, a espiritualidade pretende nos mostrar o que há mais além dela.

Quando nos expomos ao ensinamento, quando nos expomos ao que é novo ou parece desafiante, pode surgir alguma confusão. Porém, isso é bom, pois esclarecendo a visão que temos das coisas, crescemos e aprendemos.

É por isso que dizemos que é preciso manter a mente aberta. Senão, a liberdade dos condicionamentos e crenças que bloqueiam a nossa felicidade, simplesmente não acontece.

Fiquemos então atentos e receptivos, para melhor aproveitar esta leitura, e para que ela faça uma diferença nas nossas vidas.

Venha para estes textos com a mente aberta, com uma atitude receptiva e tranquila, como quem dá um presente para si mesmo.

Lembre que, em verdade, você está vindo ao encontro do seu melhor amigo, da sua melhor amiga, que é você mesmo, você mesma.

Os três pilares de Śivānanda

Swāmi Śivānanda dizia que a boa vida tem três pilares: alimentação adequada, exercício adequado e relaxamento adequado.

Porém, ajustando a fala do Swāmi, o Dr. Matt Walker afirma que o sono adequado é o alicerce da vida boa, que suporta a dieta e o exercício.

Sem um relaxamento adequado, esses outros dois fatores, sozinhos, não podem fazer grande coisa por nós.

Precisamos valorizar o sono da maneira que ele merece, pois não é um recurso renovável. O sono é o sistema de suporte à vida que, sabiamente, a mãe natureza nos legou. Coisas maravilhosas acontecem conosco quando dormimos.

Por outro lado, coisas preocupantes acontecem conosco quando negligenciamos o sono, tanto no cérebro quanto no restante do corpo físico.

Se chegarmos a viver até os 90 anos de idade, teremos conseguido dormir cerca de 30.

Porém, quando não conseguimos passar um terço da vida dormindo, a falta do esperado descanso pode gerar problemas de saúde como hipertensão, cansaço, arritmias cardíacas, além de acidentes de trabalho e trânsito, perda de memória, irritabilidade crônica e insensibilidade social, como vimos no primeiro texto desta série.

A falta dele produz uma reação emocional negativa nas pessoas. Isso significa que quando você não dorme bem, tende a agir de maneira agressiva ou reativa diante das circunstâncias mais neutras. Noutras palavras, a falta de sono faz da nossa vida emocional um inferno.

A falta de sono nos faz muitas vezes reagir de maneira equivocada, injusta ou irracional. A falta de sono provoca mau humor, irritabilidade, ansiedade e pode induzir ou agravar quadros de depressão.

A privação de sono, seja da forma que for (dormindo pouco ou nada, de forma intermitente ou virando noites inteiras), tem sempre consequências indesejáveis no nosso bem-estar. As horas de sono perdidas não se recuperam com o tempo. Não há cochilo, siesta ou power nap que vá nos salvar da falta de sono.

O sono rejuvenesce e mantém a saúde e a agilidade do cérebro

Longe de ser um estado inerte, o sono é extremamente ativo, já que o nosso cérebro continua trabalhando sem parar enquanto dormimos.

Durante o sono ocorrem vários fenômenos em nosso corpo: produz-se uma descontração corporal característica, mudam os patamares sensoriais para nos ajudar a desligar do ambiente onde estamos e aparecem padrões únicos de atividade cerebral.

Esses padrões de atividade se dividem em duas grandes etapas: uma chamada NREM (non-rapid eye movement, em inglês, “sem movimento rápido dos olhos”) e outra etapa chamada REM (rapid eye movement, “movimento rápido dos olhos”).

A primeira etapa subdivide-se, por sua vez, em quatro diferentes fases, de acordo com o tipo de atividade que registre o cérebro.

Ao longo da noite passamos por essas diferentes etapas, alternando sonos leves e mais profundos, com sonhos e sem sonhos.

Já ao aproximar-se o amanhecer, o sono torna-se mais leve e passamos mais tempo na fase REM, o que significa que “sonhamos” mais.

O bom sono desempenha um papel essencial em nosso bem-estar emocional e estimula a criatividade.

O sono ajudaria a consolidar as novas lembranças e atualizar as antigas sobre a base do que acabamos de aprender.

Também ajuda a forjar novas conexões neuronais filtrando destas as que não têm importância.

O cérebro, ainda que adormecido, sabe perfeitamente que informação colhida ao longo do dia é significativa e importante para ser mantida e, por outro lado, quais são as experiências sensoriais ou vivências que podem ser atenuadas ou esquecidas.

Cientistas descobriram recentemente que os bons hábitos de sono fortalecem o cérebro a longo prazo e o auxiliam nas tarefas de autorreparação.

Um estudo recente concluiu que, durante o sono aumenta a atividade nos genes envolvidos na produção de células chamadas oligodendrócitos.

Essas células são responsáveis por revestir os neurônios com mielina, o “material isolante” do cérebro.

Por outro lado, a privação de sono produz uma maior atividade nos genes implicados no estresse e na morte celular.

Estima-se que antes do surgimento da eletricidade, o ser humano dormia perto de três horas a mais do que na atualidade. Eram outros tempos. Era outro ritmo, que parece impossível de alcançar hoje em dia. No entanto, esse ritmo de vida mais calmo traduzia-se num cotidiano mais tranquilo e relaxado.

Faríamos muito bem em tentar voltar para ele, pois o ciclo de sono e vigília possui um equilíbrio que se autorregula espontaneamente desde o nosso nascimento. No entanto uma vez alterado, esse equilíbrio é difícil de se restabelecer.

A iluminação artificial e a posterior implantação do trabalho em turnos nos afastou progressivamente do ciclo natural de luz e escuridão.

Os horários madrugadores da escola ou do trabalho, os programas de televisão que empurram cada vez mais os horários centrais para altas horas da noite, a consulta permanente das mídias sociais e o desproporcional estresse cotidiano são alguns dos fatores que atentam contra nosso descanso.

O uso de computadores, tablets ou celulares imediatamente antes de irmos para a cama dificulta a conciliação e a manutenção do sono porque provocam uma ativação da atenção. Do mesmo modo, o alerta e a luz de suas telas funcionam como estimulantes e reduzem o nível de melatonina (hormônio que se encarrega, entre outras coisas, de regular o nosso relógio biológico).

Como consequência dessa situação, caímos num ciclo de estímulo e entorpecimento, em que se utilizam estimulantes como a cafeína e a nicotina para a vigília durante o dia e sedativos como calmantes e álcool à noite para apagar. Não há pior saṁsāra do que esse. O saṁsāra, na visão do Yoga, é a vida condicionada, na qual a pessoa não consegue sair do circuito mental ou do círculo vicioso em que se encontra, e sofre com isso.

Sono e memória

A memória constrói o que somos enquanto indivíduos. Perder a memória significa perder o que somos. Tragicamente, isso é o que acontece quando a pessoa tem o mal de Alzheimer.

Quem tem ou teve um ente querido com esse mal, conhece bem a tristeza de ter que lidar com essa perda de memória. É como se a pessoa deixasse de ser quem ela é.

As pessoas na terceira idade, via de regra, têm mais dificuldades para dormir e, como você sabe, tendem também a esquecer das coisas. Há pesquisas que mostram que há um vínculo muito significativo entre o mau sono e o mau funcionamento do cérebro.

Já vimos, no texto Por Que Dormimos Mal? A Epidemia Silenciosa da Privação de Sono, o que o sono profundo faz pelo cérebro: é nele que se eliminam as proteínas tóxicas que propiciam o mal de Alzheimer. Para que esse processo tenha lugar, é necessário tempo dormindo profundamente.

O bom sono, assim, é fundamental para que possamos continuar sendo quem somos, para que possamos preservar as nossas lembranças, aprimorar a nossa capacidade de aprender e preservar as nossas experiências para conseguirmos evitar repetir erros passados, por exemplo.

Continue a leitura com o próximo texto da série: Cinco Soluções Simples para Dormir Melhor
Texto anterior: Por Que Dormimos Mal? A Epidemia Silenciosa da Privação de Sono

॥ हरिः ॐ ॥

Todos os textos da série Durma Bem estão em Respire e Relaxe. Para ir mais fundo, com 26 aulas em vídeo e 28 relaxamentos guiados, conheça o curso online Bem-Estar e Higiene do Sono com Base na Ciência.

॥ हरिः ॐ ॥

Retrato-Pedro-03
Website | + posts

Pedro nasceu no Uruguai em 1966. Conheceu o Yoga na adolescência e pratica desde então. Aprecia o o Yoga mais como uma visão do mundo que inclui um estilo de vida, do que uma simples prática. Escreveu e traduziu 10 livros sobre Yoga, além de editar as revistas Yoga Journal e Cadernos de Yoga e o site yoga.pro.br. Para continuar seu aprendizado, visita à Índia regularmente há mais de três décadas.
Biografia completa | Artigos

Newsletter-Hanuman

Gostou deste texto?

Receba os próximos artigos do Pedro no seu e-mail, a cada 15 dias.

Sem spam; cancele quando quiser, pelo link em cada e-mail. Política de Privacidade

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *