श्रीः
भक्तिः
Devoção é Confiança
O que é a devoção e qual é o seu lugar no Yoga · Pedro Kupfer
Já vimos a questão do como venerar é natural para o ser humano, e compreendemos a peculiar visão da não-dualidade. Para compreender a devoção, respondamos a duas perguntas: 1) O que é exatamente devoção? 2) Qual é a função dela no Yoga?
O mantra
राधे राधे राधे श्याम से मिला दे ।
राधे राधे राधे घनश्याम से मिला दे ॥
rādhe rādhe rādhe śyāma se milā de |
rādhe rādhe rādhe ghanaśyāma se milā de ||
Se formos no dicionário, veremos que devoção é um “apego sincero e fervoroso a Deus ou aos santos, sob uma forma litúrgica ou por práticas regulares privadas. Sentimento religioso, piedade”. Porém, pelo que vimos até aqui sobre a não-dualidade, essa definição não faz nenhum sentido.
Se você for pensar friamente, a devoção não faz nenhum sentido. O Ser Ilimitado não necessita devoção. Um ato de devoção não irá fazer que ele se sinta melhor. Deixar de fazer atos de veneração tampouco fará que ele se sinta pior. O Ilimitado não tem esse tipo de capricho. A Plenitude que é o Ilimitado não faz exigências de nenhum tipo.
O Ilimitado não tem emoções oscilantes. O Ilimitado não tem emoções que possam oscilar, como as de um coração humano. Praticar mantras não fará diferença para Brahman. Brahman é o Invariável, o Ilimitado. Portanto, não precisa de devotos. E, portanto, precisaremos aqui ressignificar a palavra devoção. Noutras palavras, dar a ela uma nova dimensão, pois originalmente, a palavra bhakti, que significa devoção em sânscrito, não se refere à fé cega nem a satisfazer os caprichos de um deus caprichoso ou vingativo.
Qualquer coisa que possamos dizer para adorar o Absoluto, qualquer mantra, qualquer prece será, necessariamente, inadequada ou incompleta, pois não há palavras que possam definir, abranger ou conter o Ilimitado. Até mesmo quando escutamos a palavra Ilimitado, que aponta para Aquilo que não está condicionado por tempo ou espaço, não é evidente nem fácil compreender a realidade para a qual apontam estas palavras.
Qualquer prece que possamos dizer, qualquer mantra que posamos pronunciar para tentar compreender o Ilimitado, ou nos conectar com ele, será feito, necessariamente, desde o nosso próprio ponto de vista. Seria algo tão limitado como uma onda cantando as glórias do oceano. Necessariamente, será algo condicionado, subjetivo.
Por outro lado, se tivermos mesmo devoção, não precisamos fazer nenhuma ação. Porém, qualquer ato de devoção, mesmo falho ou limitado como são os que podemos fazer com a mente e o coração, nos possibilita descobrir o verdadeiro significado de bhakti, a devoção.
Podemos cultivar um compromisso deliberado em direção à devoção. Uma ação que surja do nosso próprio livre arbítrio. Se fizermos o que queremos fazer, então a devoção será uma ação derivada da nossa capacidade de, livremente, fazer escolhas. Se o ato surgir espontaneamente da nossa própria liberdade, haverá devoção.
Qualquer ação em direção à devoção que seja feita a partir da nossa liberdade irá revelar uma certa disposição. Iremos descobrir essa disposição no próprio caminho, enquanto fazemos as ações. Desde que haja vontade, desde que haja curiosidade para tanto, é claro.
No início pode não haver força no ato, nem uma grande vontade, além da curiosdade de experimentar. Com a repetição, o hábito se fortalece e depois se integra de maneira espontânea.
Hábitos que nos fazem bem não devem ser fonte de preocupação. Porém, precisamos ter cuidado com os outros, aqueles que podem ser perniciosos ou potencialmente destrutivos, seja para a nossa saúde, seja para o nosso bem-estar, seja para o nosso coração.
Em presença dos desejos fazemos ações, esforços, para realizá-los. Essas ações são expressões físicas de pensamentos relativos aos desejos. Quando há desejo, há ação. Porém, ao fazermos ações rituais, invertemos esse processo. Inicialmente, ao fazermos um ritual, nossa devoção pode ser superficial. Com o tempo, ela pode se aprofundar.
No reconhecimento de Īśvara, o Ilimitado, há um sentimento de entrega, de confiança, que é justamente o que chamamos de devoção. Essa é a diferença entre a definição de devoção que encontramos no dicionário e a que usamos no Yoga. A relação entre Īśvara e o indivíduo que cada um de nós é, é a relação que existe entre entre criador e criatura. Īśvara é a causa. Nós somos o efeito.
Como seres vivos, ao nos descobrir dotados deste corpomente, acreditamos, equivocadamente, ser o kartṛ, o agente das ações. Você, enquanto Ser, não faz. Quem faz é o corpomente. Īśvara é o karmaphaladatta, aquele que entrega os frutos das ações. Īśvara é o conjunto das leis que regem a criação, dentre as quais a mais importante é o princípio de causalidade ou lei do karma.
Na relação criador-criatura, desde a individualidade que somos, não podemos negociar com essas leis. Sábio, nesse sentido, é reconhecé-las, compreendê-las e aceitá-las como justas e adequadas, pois elas são o próprio corpo de Īśvara. E valem para todos os seres humanos, em todos os tempos e lugares. Esse reconhecimento é o que nos torna devotos.
Mesmo quando a palavra devoção não signifique muito para nós, ou mesmo se não tivemos ocasião de pensar nisto antes, nos tornamos devotos sem precisar fazer nada, apenas quando reconhecemos a realidade das coisas.
Devoção, neste contexto, portanto, não é uma fé cega nem o produto de um dogma, mas uma atitude de entrega, confiança e equanimidade, que nasce da compreensão da Ordem Maior, da qual as leis de Īśvara são a expressão natural.
Estes são nomes do casal divino, Rādhā e Kṛṣṇa. O primeiro verso diz, “Rādhā, por favor, me leve até Śyāma (Kṛṣṇa)”. Os versos seguintes evocam os diferentes nomes e formas de Rādhā e Kṛṣṇa. Ghana, Śyāma e Kṛṣṇa são três palavras que se referem à pele escura, pois Kṛṣṇa é representado como tendo pele negra.
Pelo cânone de beleza da Índia antiga, quanto mais escura a pele, mais linda a pessoa. Assim, se Kṛṣṇa é aquele que possui todo o encanto, isso só pode ser simbolizado por uma pele bem escura.
Então, ao fazermos o mantra, lembremos do que vimos até aqui: não há diferença, não há distância entre o devoto e o objeto da devoção. Sujeito, objeto e ação são a mesma realidade.
Quando pedimos a Rādhā que nos leve até Kṛṣṇa, estamos em verdade tomando consciência de que não há distância, de que não há espaço entre Kṛṣṇa e nós. Reconhecemos assim que não há espaço entre Rādhā, Kṛṣṇa e nós. Nunca houve. Kṛṣṇa é um dos muitos nomes do Todo, a Inteligência Ilimitada. Enquanto individuos, somos suas criaturas. Não há diferença entre criador e criatura.
Aceitamos e reconhecemos as inúmeras expressões do Ilimitado, na forma de todas as leis naturais, na forma de todas as ações e seus frutos. Aceitamos as coisas como elas são e ficamos em paz. Isso é devoção: a compreensão da Ordem Maior.
No reconhecimento do Ilimitado, reconhecemos no nosso coração essa entrega, essa confiança, que é a devoção.
Imagem de destaque: A confidente leva Rādhā até Kṛṣṇa, Jaipur, Rajasthan, c. 1790–1800. Cleveland Museum of Art (CC0).
॥ हरिः ॐ ॥
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