Bronze Chola de Śiva Naṭarāja dançando dentro de um arco de chamas, com o pé esquerdo erguido

Oṁ Namaḥ Śivāya: a Eterna Mu-Dança

Por Pedro Kupfer 7 de novembro de 2026 6 minutos de leitura

श्रीः

ॐ नमः शिवाय

Oṁ Namaḥ Śivāya

A Eterna Mu-Dança · Pedro Kupfer

O célebre Oṁ namaḥ Śivāya é conhecido como pañcākṣara, ou “mantra das cinco sílabas”. Ele aparece no Ṛg Veda, um dos textos mais antigos da Humanidade e certamente o primeiro onde se expõe o Yoga como visão libertadora.

O mantra

ॐ नमः शिवाय ॥

oṁ namaḥ śivāya ||

Literalmente, namaḥ Śivāya significa “minha saudação ao Benéfico”. Śiva é o Benéfico. E o Benéfico é a mudança, representada por Śiva em sua forma de Natarāja, rei da dança. A dança, por sua vez, aponta para o movimento constante, bem como para a celebração da criação, que é expressão da felicidade plena.

Śiva dança e o mundo tem lugar. Śiva dança e seus longos dreadlocks (jaṭā, em sânscrito) giram horizontalmente com a força dos giros. Śiva dança num pé só e o Universo acontece. As galáxias, o sol, a lua e os demais corpos celestes estão em sua cabeleira. Os dreadlocks, as tranças de Śiva são o próprio firmamento que vemos.

Numa das suas quatro mãos segura o fogo, que representa a luz do conhecimento do Ser. Com outra mão segura o tambor ḍamaru, que marca o ritmo de expansão e recolhimento da Criação. O som do tambor simboliza a presença do espaço e consequentemente do som que se propaga através dele. É pelo espaço que se expandem as palavras que trazem o conhecimento libertador.

Faz o gesto de espantar o medo, abhāya mudrā, para nos indicar que não precisamos ter, alimentar ou viver presos aos nossos receios. Também faz o gesto de dar bênçãos, varada mudrā, apontando para o próprio pé, dizendo: “tome refúgio aos meus pés”. Na tradição do Yoga, os pés do mestre representam o poder do conhecimento.

Seus braços, tronco, pescoço e pernas estão rodeados por serpentes naja, que simbolizam o domínio do poder do inconsciente. As serpentes representam aquilo que ignoramos sobre nós mesmos. Śiva dança sobre um demônio derrotado, chamado Mūlyalāka e representando o egoísmo, e sinaliza assim a vitória sobre a ignorância existencial.

Ao ouvir o mantra, pensemos nisto: compreendendo que os desejos não têm fim, e tampouco a capacidade de nos tornar felizes, abrimos mão do apego que nutrimos por eles. Isso fará com que possamos descobrir a nós mesmos como a felicidade que poderíamos estar buscando nesses desejos.

Quando nos reconhecemos como felicidade, quando nos vemos como simplicidade e calma, compreendemos que nada pode ser acrescido ou tirado de nós. Assim, o apego e o sofrimento se enfraquecem e cessam. Isso é mokṣa, a libertação, objetivo final do Yoga.

A Taittirīya Upaniṣad (III:6:1) diz que o menino yogi Bhṛgu “conheceu ānanda, a felicidade, como sendo o Ser. Pois, de fato, é da felicidade que todos os seres são criados. Tendo nascido, eles são sustentados pela felicidade. Se movem em direção à felicidade, e nela se absorvem”.

O indivíduo é uma manifestação do Todo, assim como a onda é uma manifestação do Oceano. Quando a onda pára de olhar para si mesma como sendo limitada, e compreende que é Oceano infinito, vive tranquila e feliz.

Somos a própria plenitude, à qual nada pode ser acrescido e da qual nada pode ser tirado. Quando olhamos dessa forma para nós mesmos, desaparece aquela pressão, aquela insegurança, aquela vontade de que o tempo voe ou pare, aquela vontade de pretender controlar situações ou pessoas. Assim, aceitamos com gratidão o que recebemos e temos para viver a cada dia.

Imagem de destaque: Śiva Naṭarāja, Tamil Nadu, séc. XI. Cleveland Museum of Art (CC0).

॥ हरिः ॐ ॥

Nesta série: Deuses e arquétipos

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Pedro Kupfer

Pedro nasceu no Uruguai em 1966. Conheceu o Yoga na adolescência e pratica desde então. Aprecia o Yoga mais como uma visão do mundo que inclui um estilo de vida, do que uma simples prática. Escreveu e traduziu 10 livros sobre Yoga, além de editar as revistas Yoga Journal e Cadernos de Yoga e o site yoga.pro.br. Para continuar seu aprendizado, visita à Índia regularmente há mais de três décadas.
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