Pintura mogol: mulher oferece guirlanda a um liṅga de Śiva à noite, sob estrelas, lua crescente e lamparinas

Mahāmṛtyuñjaya: o Grande Vencedor da Morte

Por Pedro Kupfer 7 de novembro de 2026 5 minutos de leitura

श्रीः

महामृत्युञ्जयमन्त्रः

Mahāmṛtyuñjaya

O Grande Vencedor da Morte · Pedro Kupfer

A tradição do Yoga atribui este poderoso mantra ao sábio Markaṇḍeya. Diz a lenda que ele era o único que o conhecia até que a Lua foi amaldiçoada pelo rei Dakṣa. O sábio Markaṇḍeya entregou o mantra para Satī, a filha do rei (que depois iria se tornar esposa de Śiva o primeiro mestre de Yoga), em troca de que ele levantasse a maldição contra a Lua. Desde aquele momento, Śiva colocou a Lua sobre sua cabeça o mantra ficou disponível para o benefício de todos os seres humanos.

O mantra

ॐ त्र्यम्बकं यजामहे सुगन्धिं पुष्टिवर्धनम् ।
उर्वारुकम् इव बन्धनान् मृत्योर् मुक्षीय मामृतात् ॥

oṁ tryambakaṁ yajāmahe sugandhiṁ puṣṭivardhanam |
urvārukam iva bandhanān mṛtyor mukṣīya māmṛtāt ||

Ouça na Rádio Havelī: Mahāmṛtyuñjaya Mantra

Ele é também chamado Rudramantra, referindo-se ao aspecto terrível de Śiva, ou ainda Tryambakamantra, “mantra daquele que tem três olhos”, pois a palavra inicial alude aos três olhos de Śiva. Este mantra aparece no Ṛg Veda (VII.59:12), no Yajur Veda (III.60:C) e no Athārva Veda (XIV.1:17).

É muito benéfico para a saúde, tanto física quanto emocional e mental. É considerado um mantra que outorga a libertação, mokṣa, e nos ajuda a tomar consciência de que, como não somos o corpo finito em que vivemos, nunca iremos morrer.

A repetição deste mantra junto com a meditação sobre seu significado nos conduz à compreensão da nossa real natureza, sobre quem somos, sobre o que nasce e morre (o corpo) e o que não está sujeito a quaisquer mudanças (o Eu). Suas palavras dirigem a atenção ao Ser que somos e nos dão calma e concentração, tornando a vigília em lucidez.

Enquanto há outros mantras que se usam para obter purificação psíquica, o objetivo do Mahāmṛtyuṅjaya é compreendermos a nossa real natureza. Porém, este mantra também é utilizado para ajudar a motivar o restabelecimento da saúde ou da longevidade, especialmente durante um período de convalescência ou fragilidade que um ente querido ou nós mesmos possamos estar atravessando. Ou ainda, em presença da inevitável morte, usamos o Mahāmṛtyuṅjaya mantra para compreendermos que ela é somente para o complexo corpomente, e nunca para o Ser.

A tradução do mantra é assim: “Oṁ. Peço àquele que tem três olhos, o mestre dos sentidos e sustentador de tudo o que cresce, que me liberte do ciclo de condicionamentos e mortes. Assim como o melão se desprende [sem esforço] do seu talo quando está maduro, que me leve da morte à imortalidade”.

Pādapāṭha tradução palavra por palavra

Oṁ: símbolo da Consciência Ilimitada; tryambakam: aquele que tem três olhos (tri + ambakam = três + olhos) (caso acusativo); yajāmahe: nós reverenciamos, nós adoramos; sugandhim: fragrante, de doce aroma (caso acusativo); puṣṭi: próspero, cheio de vida, bem nutrido; vardhanam: aquele que nutre ou fortalece, que provoca o crescimento ou restaura a saúde; puṣṭi + vardhanam: puṣṭiḥ vardhate anena tat (samas) = aquele que nutre outrem e dá-lhes plenitude; urvārukamiva: como um melão (caso acusativo); bandhanān: das amarras [i.e., do talo do melão]; mṛtyormukṣīya: livre da morte (mṛtyuḥ + mukṣīya = da morte + livre); māmṛtāt: livre-me da morte mas não da imortalidade.

Imagem de destaque: Cena noturna de pūjā a Śiva, Lucknow, c. 1760–70. Cleveland Museum of Art (CC0).

॥ हरिः ॐ ॥

Nesta série: Deuses e arquétipos

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Pedro Kupfer

Pedro nasceu no Uruguai em 1966. Conheceu o Yoga na adolescência e pratica desde então. Aprecia o Yoga mais como uma visão do mundo que inclui um estilo de vida, do que uma simples prática. Escreveu e traduziu 10 livros sobre Yoga, além de editar as revistas Yoga Journal e Cadernos de Yoga e o site yoga.pro.br. Para continuar seu aprendizado, visita à Índia regularmente há mais de três décadas.
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