श्रीः
पूजा
O Devoto no Altar
A devoção na prática, diante do altar · Pedro Kupfer
Havendo compreendido a devoção, damos mais um passo: ver como cultivar essa atitude na prática, nesse lugar sagrado que é o altar.
O mantra
जय शिव शम्भो शङ्कर ।
हर हर हर महादेवराज् ॥
हे शिव शङ्कर हे महेश्वर ।
हे शिव शम्भो शङ्कर ॥
jaya śiva śambho śaṅkara |
hara hara hara mahādevarāj ||
he śiva śaṅkara he maheśvara |
he śiva śambho śaṅkara ||
O altar é muito mais que aquilo que os olhos podem perceber. Se ficarmos à frente de um altar, nos perguntando quem é que fez a imagem de metal, pedra ou madeira, ou se fizermos um selfie na frente dele, isso não é um altar, mas apenas um objeto da nossa percepção.
O que faz com que um altar seja um altar é o upādhi, a superimposição deliberada de um significado sobre esse objeto especial que os sentidos captam. Para perceber o Ilimitado na imagem, para ir além da percepção sensorial, é necessário fazer, propositalmente, essa superimposição. Noutras palavras, projetar a partir do nosso próprio conhecimento o significado de Īśvara sobre a imagem que vemos à nossa frente.
O ponto de partida é reconhecer que forma, é forma de Īśvara, a Inteligência Criativa. Porém, nenhuma forma abrange o Todo. Portanto, em qualquer forma podemos invocar o Todo, como quando invocamos o oceano na onda. Assim, tocar a onda é tocar o oceano.
Cada ato, mesmo os preparativos, como colhermos as flores que serão usadas na oferenda ou preparar o espaço em que faremos a oferenda, fazem parte da devoção, da mesma maneira que lavar e cortar os vegetais antes de cozinhar faz parte da preparação do prato. O amor deve ser descoberto, pois ele já está sempre aqui.
Se, por exemplo, tivermos alguma dificuldade com alguém, precisaremos fazer algum esforço para reconhecer o amor que podemos nutrir por essa pessoa, mesmo que não estejamos sentido isso num momento de conflito ou dificuldade. Nesse sentido, meu mestre, Swāmi Dayānanda, recomenda fazer o esforço de oferecer uma flor por dia durante dez dias para a pessoa em questão.
Devoção e autoconhecimento
Ao oferecermos a flor, estamos criando as condições para que o amor se manifeste. Quando descobrimos o amor, as ações adequadas surgem. Quando ações adequadas têm lugar, o amor pode ser reconhecido. Primeiro com algum esforço. Depois, naturalmente. Esse esforço inclui o reconhecimento de que cada ser vivo é manifestação da mesma Inteligência Criativa. Todos somos expressões de Īśvara.
À frente do altar, no processo de ações que realizamos, descobrimos a pessoa fundamental, a pessoa simples o devoto que somos. E, se compreendermos isso, seja através destas ações rituais ou de outras práticas, reconheceremos que não somos os papéis que representamos mas que estamos presentes, de maneira invariável, em cada papel que fazemos na vida. Ao reconhecermos isso, a jornada em direção ao autoconhecimento será uma viagem cheia de descobertas positivas e alegrias.
A oferenda nos ajuda a obter conhecimento. No início da pūjā fazemos un saṅkalpa, uma resolução interior, para ganharmos uma vida longa, saúde e uma mente clara. Porém, esses objetivos não são fins em si mesmos mas condições prévias para podemos desfrutar do autoconhecimento. Assim, pede-se uma atitude adequada, que inclua algum grau de desapego em relação às questões do corpomente.
Quem mantra, seus males espanta
“Quem canta, seus males espanta”, diz o ditado. Parafraseando ele, nós dizemos “quem mantra, seus males espanta”. Fazer mantra traz um bom grau de absorção para a mente, que se foca no canto, no som e no significado das palavras e o Sujeito para o qual elas apontam.
O cântico é transformador. Ele nos ajuda a estabelecer uma relação real entre a pessoa básica que somos e Īśvara, o Todo. Essa relação do indivíduo e o todo é a relação do devoto. Ao escolhermos um dos nomes de Īśvara para recitar, transcendemos os papéis que representamos. Essa pessoa simples que se relaciona com Īśvara, assume os diferentes papéis ao longo da vida.
Porém, diante do altar, essa pessoa básica torna-se una com as ações que faz e com o objeto da sua contemplação. Esse mesmo tipo de absorção, chamada lāyā, acontece também quando ouvimos uma música da qual gostamos, ou que nos atrai quando a ouvimos por primeira vez.
O mesmo que seduz a nossa mente na música, seja o ritmo, seja a harmonia, seja a melodia, seduz igualmente ela nos mantras. Porém, no caso dos mantras temos uma vantagem adicional: além deles invocarem a pessoa simples que somos, têm significados que revelam a glória de Īśvara em todas as suas manfiestações.
Esses significados, por sua vez, nos permitem apreciar o Todo que é Īśvara. E, quando essa experiência é compreendida à luz do autoconhecimento, a jornada se completa. A absorção é terapêutica. Ela pode nos curar, fechar nossas feridas. Pode nos ajudar a fazer um pacto com as eventuais cicatrizes que estejamos carregando do passado.
Isso acontece pois ao descobrir o devoto que somos curamos as nossas mágoas e culpas e encontramos um sentimento de paz, de estarmos no nosso lar. Os mantras podem nos ajudar, assim, a descobrirmos ou reencontrarmos essa paz, e ficarmos nela, amparados pela visão do Todo, reconhecendo que temos um lugar nesse Todo, e que esse lugar é justo e adequado para o momento que estamos vivendo agora.
Obviamente, se sentirmos que podemos ou devemos mudar a nossa condição, temos todo o direito e a liberdade para fazermos isso, mas qualquer mudança somente irá acontecer a partir da aceitação do presente, seja ele qual for.
Vemos mais uma vantagem que nos mantras, ainda: eles tornam a mente harmoniosa. Na linguagem do Yoga, isso é chamado sattva, equilíbrio. A mente pode oscilar entre pensamentos e sentimentos de inércia ou agitação, chamados, respectivamente, tamas e rajas. O ponto de equilíbrio entre esses dois extremos é a harmonia.
Essa harmonia que o som dos mantras evoca é curativa. A cura emocional acontece quando o equilíbrio ressurge e se estabelece com firmeza no nosso cotidiano. Quando não somos mais, desde o ponto de vista emocional, uma casca de noz à deriva num mar tormentoso.
Esse cântico precisa ser mantido, para render bons frutos, por um certo período de tempo. É por isso que mantras curtos são repetidos por, pelo menos 108 vezes, enquanto que os outros maiores, como por exemplo as diversas formas do gāyatrī mantra que já praticamos, que tem 24 sílabas, são repetidos pelo menos 24 vezes: uma vez por cada sílaba que o mantra tiver.
Assim, o processo de cura emocional só irá acontecer a partir de um certo esforço e persistência na repetição do mantras, com a atitude adequada e a mente focada no significa daquilo que estamos fazendo, reconhecendo que cada mantra aponta para o Ilimitado, que é o que todos essencialmente somos, em suas diversas manifestações.
Imagem de destaque: Dois brâmanes levam um altar e símbolos religiosos. Wellcome Collection (domínio público).
॥ हरिः ॐ ॥
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