Pintura rajput: jovem derrama água em oferenda ao sol nascente, junto a um lago com lótus e patos

Oṁ, o Som do Ilimitado: o que é Mantra Yoga

Por Pedro Kupfer 7 de novembro de 2026 11 minutos de leitura

श्रीः

ॐ

Oṁ, o Som do Ilimitado

O Som do Ilimitado · Pedro Kupfer

É uma forma de Yoga completa em si mesma já que, como todas as demais, expõe a visão libertadora do Yoga através dos ensinamentos sobre autoconhecimento que estão contidos nas palavras dos mantras, e ainda propõe uma disciplina prática que nos ajuda a organizar as coisas do nosso cotidiano, trazendo disciplina para a respiração, clareza e objetividade para a mente, e paz para o coração.

Ouça na Rádio Havelī: Meditação no Mantra Oṁ

O som está indissoluvelmente ligado à Inteligência Criativa. A Mantra Yoga Saṁhitā, III, um texto antigo sobre a ciência dos sons, afirma o seguinte: “Onde quer que haja atividade, haverá algum tipo de vibração. Onde houver vibração, haverá igualmente a presença do som. A criação é movimento, é expansão. Assim, o som que surge como primeira manifestação do Ser Ilimitado, é o auspicioso praṇava, na forma da sílaba Oṁ”.

Noutras palavras, o Universo é Consciência, é manifestação da Inteligência Ilimitada, que está presente em todas e cada uma das miríades e nomes e formas que configuram a criação. O mantra Oṁ alude à fonte da Criação. É por isso que ele é chamado Śabda Brahman em sânscrito, o que quer dizer “Som do Ilimitado”.

Este mantra é formado pelo ditongo das vogais a e u, e a nasalização, representada pela letra ṁ. Por isso é que, às vezes, aparece grafado Auṁ. O a, somado ao u, configuram um ditongo, que se pronuncia o. O ṁ é a consoante.

As três letras correspondem, segundo a Maitrī Upaniṣad (viii), aos três estados de consciência: vigília, sono e sonho: “este Átman é o mantra eterno Oṁ, os seus três sons, a, u e ṁ, são os três estados de consciência, e estes três estados são os três sons.”

O a representa o mundo físico e sua experiência, a vigília, que é o primeiro estado de consciência mencionado pela Upaniṣad. O a abrange tanto aquele que experiencia, como as próprias experiências e ainda os objetos experienciados. Na vigília vivemos cientes do nosso corpo e do próprio mundo físico, o que conhecemos e o que desconhecemos dele, ao mesmo tempo em que vivemos conscientes de sermos aquele que experienciamos esse mundo.

O u aponta para o universo do pensar, que é diferente e mais sutil que as experiências da esfera física. Esse universo do pensar é o que se experiência durante o sonho, onde têm lugar vivências como a imaginação e o pensar abstrato, simbólico, expressado através da linguagem onírica.

Em termos da experiência humana, o ṁ simboliza as experiências relativas ao sono profundo, a condição não manifestada. Em termos macrocósmicos, esse som do ṁ aponta para o que havia antes e o que haverá depois do Universo manifestado.

Assim, vigília, sonho e sono abrangem todas as experiência humanas. É para isso que aponta o Oṁ. Em termos cósmicos, o que houve antes, o que há agora e o que virá depois, tudo é Oṁ. O conhecido e o desconhecido, as experiências e aquele que experiência, tudo é Oṁ.

Oṁ, o mais importante de todos os mantras. Se você for à Índia, seja ao lugar que for, verá o mantra Oṁ por todas partes: em todas as casas e comércios, pintado nos muros e carros, onipresente na paisagem. Pessoas de todas as etnias, castas e idades conhecem seu significado. Ele ecoa desde a noite das idades em todos os templos e comunidades ao longo do país.

Mas o que é o Oṁ? Se diz deste mantra que ele contém todo o conhecimento dos Vedas. É considerado o Corpo do Ser Ilimitado, em forma de som. Oṁ é “aquilo que protege, que sustenta”. Em sânscrito, rakṣati. Esse apoio, esse sustento, é a própria Ordem do Universo que é, por sua vez, a Realidade de tudo.

A Ordem é a Realidade, tudo o que há. Tudo o que conhecemos e tudo o que ignoramos sobre o mundo. A essência dessa Ordem é Oṁ. Oṁ é o nome que se dá à Consciência Ilimitada, que está presente em tudo e em todos, e que preserva a Criação na forma da Ordem Total.

Quando dizemos que Oṁ é a Ordem subjazente em tudo e em todos, não apontamos para ela com algum objeto separado, que esteja por trás dos objetos que vemos aqui na realidade. A Ordem é tudo e todos. A Ordem é aquilo que faz com que as coisas sejam como são.

O fato de a árvore ser árvore é a Ordem. O fato de o oceano ser oceano, é Ordem. Tudo que está aqui é permeado pela Ordem, que é Īśvara. Ordem é o objeto que é visto e a capacidade de enxergar. Os objetos são Ordem. Esse é o motivo pelo qual não precisamos buscar por trás deles para achá-la.

Nessa Ordem Ilimitada há mudança, há transformação constante. A larva, o casulo e a borboleta são a Ordem na forma da transformação. A Ordem é a maneira das coisas serem o que são, sujeitas à transformação, ou não. Tudo o que há deriva da Ordem, existe na Ordem, e é sustentado por ela. Essa ordem é Īśvara.

A Maṇḍūkya Upaniṣad inicia dizendo que “O Oṁ é o mundo inteiro. Passado, presente e futuro: tudo é o mantra Oṁ”. Precisamos então conectar o significado para o qual o mantra aponta, com o próprio som dela. O significado brilha na mente e, através desse brilho, a visão é transmitida. Assim se estabelece a comunicação, e se transmite o ensinamento.

Neste contexto, palavra, objeto e significado são a mesma realidade. Nome e objeto são a mesma realidade, pois é fato que não conseguimos pensar numa palavra sem evocar seu significado. Se não soubermos o significado, a palavra limita-se a um som sem sentido.

Ao associar palavra e significado, por outro lado, não conseguimos ouvir a palavra sem evocar seu significado. Assim, a palavra Oṁ é o nome da Consciência Ilimitada, que é Realidade, que é a Verdade que não pode ser negada. Oṁ é o nome da Consciência, que é Tudo o que há.

Oṁ é um símbolo que designa o Todo, o Universo inteiro, ao mesmo tempo em que é o som que aponta para Aquilo que tudo sustenta, a Consciência Ilimitada. Quando nos referimos ao Universo, não falamos somente sobre o aspecto físico da criação, mas também todas as experiências que todos possamos os humanos possamos ter nele.

De acordo com as regras do sânscrito, o Oṁ não precisa ser nem muito curto nem muito longo. Pelo fato de ter três letras (o ditongo a+u, somado à letra ṁ), sua pronúncia não deve se estender, nem ser mais breve, do que três mātras. Mātras são as unidades de tempo que se usam para medir a pronúncia no sânscrito. Um mātra corresponde a pouco menos de um segundo. Portanto, o Oṁ se faz em menos de três segundos.

Porém, alguns músicos popularizaram formas de verbalizar este mantra mais extensas. Os músicos, sabemos bem, têm licença poética para fazer isso. Para efeitos de meditação, fazer o mantra de acordo com as regras que expusemos acima é mais eficiente. Não obstante, cabe lembrar que nenhuma forma de fazer o Oṁ é errada, desde que o mantra se faça com consciência e intenção dirigidas e conhecendo seu significado.

Oṁ é Īśvara, a Consciência Ilimitada. Todo o Universo manifestado é uma unidade, que possui miríades de formas e manifestações. Cada objeto que possamos apreciar na criação é, por sua vez, uma combinação ou somatória de outros objetos. Para cada um desses objetos ou formas, damos um nome.

Para fazermos uma analogia, pense no corpo humano: ele é composto de diferentes elementos, faculdades, funções e partes: átomos, moléculas, células, órgãos, membros e o conjunto deles. Cada uma dessas formas é aludida através de um nome. Cada nome alude a uma forma que revela outra forma, que revela outra forma. Porém, nenhuma delas está separada da totalidade que é o corpo humano.

Similarmente, as partes, lugares, dimensões e leis do Universo, não estão nem existem separaradas da Inteligência Ilimitada, Īśvara. Para podermos estabelecer uma relação pessoal deste indivíduo que sou com o Ilimitado, já que o corpomente é um espelho dessa mesma Inteligência Ilimitada, é preciso darmos um nome a ela. Esse nome é o mantra Oṁ.

Esse nome, Oṁ, inclui todas as formas. Todas as experiências. Todos os tempos. Todos os lugares. Porém, desde o ponto de vista da lingüística, seria impossível termos um nome que aponte para todos os nomes e formas ao mesmo tempo. Assim, Oṁ transcende a lingüística. Nesse sentido, não é uma palavra como as demais, sejam na língua que for.

Todos os nomes são palavras. Cada palavra, que é por sua vez composta de letras, de sons, aponta para um objeto diferente. Cada língua tem suas características. Se não conhecermos um dado idioma, ouvimos apenas sons, sem darmos com o significado das palavras.

Quando dizemos Oṁ, dizemos tudo o que há para ser dito. Ao abrir a boca, o primeiro som que surge, naturalmente, é a. Depois de fechá-la, só acontece o som ṁ. Assim esses dois sons, a e ṁ, são o início e o fim. Portanto, Oṁ simboliza o início e o fim da linguagem. O início e o fim de todos os sons possíveis.

O u é o som intermediário entre esses dois extremos, e representa todas as demais possibilidades. Se faz arredondando os lábios. Então, combinando esses três sons, a, u e ṁ, temos Oṁ. E esse Oṁ, como já vimos, aponta para o Todo. Ao dizermos Oṁ, então, dizemos tudo o que pode ser dito. Assim aprendi com meu professor, Swāmi Dayānanda Sarasvatī.

Temos assim, através do mantra, a visão do Ilimitado. E podemos estabelecer, através desse portal, um vínculo pessoal com o Todo. Essa é a razão pela qual muitos cânticos e mantras começam com esse som sagrado. Até breve!

Imagem de destaque: Sūrya-pūjā, Devgarh, c. 1810. Cleveland Museum of Art (CC0).

॥ हरिः ॐ ॥

Nesta série: Fundamentos do Mantra Yoga

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Pedro Kupfer

Pedro nasceu no Uruguai em 1966. Conheceu o Yoga na adolescência e pratica desde então. Aprecia o Yoga mais como uma visão do mundo que inclui um estilo de vida, do que uma simples prática. Escreveu e traduziu 10 livros sobre Yoga, além de editar as revistas Yoga Journal e Cadernos de Yoga e o site yoga.pro.br. Para continuar seu aprendizado, visita à Índia regularmente há mais de três décadas.
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