श्रीः
मन्त्रः
O que é um Mantra? As Três Definições
As Três Definições · Pedro Kupfer
Vamos assim expor agora um pouco da ciência dos mantras, se podemos usar essa expressão. A palavra mantra significa “instrumento para o pensamento”. Como instrumento, os mantras são muito valiosos para nos ajudar a realizar uma série grande de objetivos: por um lado, nos proporcionam foco e atentividade. Por outro, nos a reflexão sobre seus significados nos permite compreender a realidade em que vivemos. Ainda, servem como eficientes objetos de meditação, prática fundamental no processo de realizar o supremo objetivo do Yoga, que é a liberdade.
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Os sons mântricos são o melhor instrumento para purificar a mente e o coração e praticar o nididhyāsanam, a reflexão sobre aquilo que se sabe ou se compreendeu sobre Si Mesmo. Mas cabe lembrar que a repetição de um som não é um fim em si mesmo: ela se faz em função do resultado: estabilidade do pensamento e reflexão sobre a própria identidade.
Através da prática de repetição de um mantra, aprendemos a estabelecer o comando sobre o pensamento. Isso acontece da seguinte maneira: ao repetirmos um mantra sucessivas vezes, conseguimos saber, de antemão, qual será nosso próximo pensamento.
Desta forma, adquirimos o comando sobre a mente: ela fica mais disciplinada e assim, podemos evitar distrações e conteúdos indesejáveis. Assim, ficamos calmos e tornamos a mente num aliado no processo do crescimento interior.
Se nos observarmos no dia-a-dia iremos reparar que em muitos momentos ficamos sob tensão, com a consciência atenta apenas ao exterior e ainda com um diálogo interior, um ruído constante na mente, como um rádio que não desliga. Esse ruído de fundo forma a paisagem interior, o substrato das nossas experiências mentais.
Não é possível mudarmos essa paisagem apenas querendo calar a mente no grito: precisamos usar a ferramenta adequada. Os mantras nos ensinam a separar-nos das experiências e influências externas, nos levam para o silêncio e nos abrem o espaço interior. Eles predispõem a mente para meditar e nos conectam, através da reflexão em seus significados, com nossa verdadeira identidade.
O Yoga utiliza diferentes fórmulas para conduzir a mente para a tranquilidade, o que permite ao praticante perceber a si mesmo como profunda calma. Porém, é preciso igualmente prestar atenção ao significado desses sons.
Esses significados variam, assim como as formas, mas todos e cada um deles apontam para a realidade única, que é o Ser ilimitado. Cada mantra revela um dos diferentes aspectos essa realidade, nas diversas formas do universo manifestado. A repetição destes mantras e a meditação sobre as qualidades divinas às quais eles apontam, permite que essas qualidades se manifestem em nós.
Dentro da tradição do Yoga temos três maneiras de definir os mantras, dependendo da maneira em que olharmos para eles ou da forma em que os classificamos. No contexto da cultura indiana, mantras são versos metrificados que aparecem nos Vedas, uma coleção de textos que estão entre os mais antigos da humanidade. A rigor, a definição de mantra se limita a essas palavras sagradas dos Vedas. Talvez o exemplo mais conhecido de mantra védico seja o Gāyatrī:
Oṁ bhūr bhuva svāḥ | tat savitur vareṇyaṁ | bhargo devasya dhīmahi | tanno dantiḥ pracodayāt ||
Além dele, há os conhecidos mahāvākyas, as grandes afirmações védicas, como Tat Tvam’asi ou Ahaṁ Brahma’smi.
A segunda definição é a seguinte: mantras são fórmulas em sânscrito que contêm a palavra namaḥ, que significa saudação. Nesse sentido, os mantras são preces ou orações dirigidas às diferentes deidades, que são manifestações da Consciência Ilimitada, na forma das diversas ordens do Universo.
Assim, no Yoga não se fala sobre politeísmo, mas polimorfismo, uma vez que não a muitos deuses, nem um só Deus, mas se postula que Tudo é Consciência, uma única Consciência, que se manifesta de maneiras diversas. Se falamos no Deus da Chuva, Varuṇa, ou no Deus do Vento, Vāyu, essas não são entidades independentes, mas distintas manifestações do Ser Único, nas diversas expressões da Ordem Universal.
Se falamos por exemplo sobre o Deus da Amizade, Mitra, não é porque acreditemos numa entidade separada que regule os relacionamentos entre amigos, mas porque a amizade é uma qualidade muito especial, que nos permite crescer juntos. Exemplos: Oṁ Sagarāya namaḥ: minha saudação à Consciência Ilimitada, sob a forma do Oceano.
E a terceira forma de definirmos os mantras, usando este termo de um modo mais genêrico e coloquial, abrange uma série de fórmulas sonoras como stotras e ślokas, hinos devocionais, cânticos populares às deidades, como os bhajans e kīrtans, e diversas formas de japa, repetição de sons com o objetivo de meditar sobre seus significados.
Vou dar aqui como exemplo desse tipo de mantra, um poema, composto e musicalizado pelo meu mestre, Swāmi Dayānanda. A tradução da letra, que está em sânscrito, diz o seguinte: “Que venha aquele que toca a flauta. Que venha aquele que cuida das vacas. Que venha aquele que rouba manteiga. Que venha aquele que ensina a Bhagavadgītā”.
Sem mencionar o nome, a canção alude a Śrī Kṛṣṇa, oitava encarnação de Viṣṇu e professor do guerreiro Arjuna num diálogo sobre a essência do Yoga que foi imortalizado na Bhagavadgītā.
Ajao bansi bhajane vala Ajao gau vacarane vala Ajao makhane churane vale Ajao Gītā sunane vale
Tradicionalmente, os kīrtans se fazem em forma de pergunta e resposta. Ou seja, a pessoa que lidera o canto faz o primeiro verso ou a primeira estrofe, e o grupo que participa repete depois. Desta maneira o canto adquire vida própria e, ainda que nós não tenhamos conhecimento de música, podemos participar desses cânticos e desfrutá-los imensamente.
Esse sons são também chamados matrikās, “mãezinhas”, e estão associados aos diferentes aspectos da manifestação de Īśvara, os devatās. Há treze bījas primários, cada um deles representando um devatā, um aspecto do divino. Exemplo: Gaṁ, bījamantra de Gaṇeśa, o Deus com cabeça de elefante, senhor da sabedoria, dos começos auspiciosos e da doçura.
Para fazermos japa, usamos freqüentemente uma mālā ou colar de 54 ou 108 contas para a recitação desse tipo de mantra. Outra forma de meditação muito popular entre os praticantes de Yoga é a chamada japanamaḥ, na qual se repetem os nomes das manifestações de Īśvara, como Oṁ namaḥ Śivāya, Oṁ namo Narayaṇāya, Oṁ Gaṁ Gaṇapataye namaḥ.
O japa é uma disciplina meditativa na qual repetimos um mantra. Essa repetição pode ser feita em voz alta, na forma de um murmúrio ou mentalmente, sendo a segunda mais potente que a primeira, e a terceira mais potente que ambas. Em todos os casos, é fundamental manter em mente o significado e a intenção do mantra, evitando a repetição mecânica.
O japa tem a virtude de nos dar foco e atentividade. Ao fazermos concentração num devattā, numa deidade, o pensamento flui em direção a ela e, naturalmente, as emoções e pensamentos se acalmam. Isso, por sua vez, nos permite compreender a nossa real identidade. Na prática de japa quebramos a associação livre dos pensamentos. Como o estímulo é sempre uniforme, fica fácil evitar a dispersão. Um exemplo é o popular Gaṇeśa Mahamantra: Oṁ Gaṁ Gaṇapataye namaḥ.
E para finalizar, ainda dentro dessa maneira mais abrangente de definir os mantras como sons que apontam para o sagrados, temos os stotrams e os ślokas. Um stotram é um hino de louvor dirigido a um devattā, uma deidade, ou a algum ser humano muito especial, como o professor. Vou recitar aqui as três primeiras estrofes do Gurustotram. Ele tem em verdade quinze, mas vale aqui o exemplo.
akhaṇḍa maṇḍala karaṁ vyāptam yena charā charam tat padaṁ darśitam yena tasmai śrīgurave namaḥ || 1 ||
ajñā nati mirān dhasya jñāna āñjana śalā kayā chakṣurun mīlitaṁ yena tasmai śrīgurave namaḥ || 2 ||
gururbrahmā gururviṣṇuḥ gururdevo maheśvaraḥ gurureva paraṁ brahma tasmai śrīgurave namaḥ || 3 ||
Śloka é um verso metrificado. Um śloka da Bhagavadgītā ou das Upaniṣads, por exemplo, pode ser repetido à guisa de meditação:
aśocyānan vaśocastvam prajñā vādāṁśca bhāṣase gatasūna gatāsūṁśca nānuśochanti paṇḍitaḥ.
Este é o célebre verso em que o deus Kṛṣṇa diz para o príncipe guerreiro Arjuna: “Estás te lamentando por quem não deves lamentar-te, embora fales como um sábio. O sábio verdadeiro não tem lágrimas, nem para os vivos, nem para os mortos”. II:11.
Para fazer kīrtans, bhajans e stotrams usamos opcionalmente o acompanhamento de instrumentos musicais. Para a recitação dos mantras védicos, a repetição dos bījamantras e outras formas de japa usamos somente a voz ou, eventualmente, também o acompanhamento de um tampura, instrumento indiano de quatro ou seis cordas que dá a nota pedal, chamada śrutiḥ, que é a linha de prata que permeia toda a extensão dos mantras. Também pode-se usar para esse propósito um harmônio ou um śruti box.
Para finalizar, temos ainda a recitação védica, chamada pāṭhaḥ, que é uma maneira de fazer os hinos védicos dentro da tradição. Pāṭhaḥ significa justamente recitação. Essa recitação se faz de acordo com regras de respiração, mnemónicas e de pronunciação bem estritas.
Ela vai acompanhada por quatro variações no tom: anudātta “não elevado”, que é o tom mais grave, svarīta, “sonoro”, que é o mais agudo, udātta, “elevado”, que é o tom intermediário, e nigādha, que é uma nota especial, elevada, feita após a intermediária, que se sustenta por mais um tempo, como quando dizemos Oṁ śāntiḥ śāntiḥ śāntiḥ.
A recitação védica se faz sentado com as costas eretas, acompanhado de inspirações curtas e rápidas e expirações longas e lentas. Farei agora, à guisa de exemplo, uma parte do Svasti pāṭhaḥ, a invocação da felicidade:
Oṁ svasti prajābhyaḥ paripālayantāṁ | nyāyena mārgeṇa mahīṁ mahīśāḥ | gobrāhmaṇebhyaḥ śubhamastu nityam | lokāḥ samastāḥ sukhino bhavantu || kāle varśatu parjanyaḥ pṛthivī sasyaśālinī | deśo’yaṅkṣobharahitaḥ brāhmaṇāssantu nirbhayāḥ ||
Oṁ. Que a prosperidade e o bem-estar sejam glorificados. Que os governantes nos governem com retidão e justiça. Que a sabedoria e o conhecimento sejam protegidos. Que todos os seres, em todos os lugares, sejam felizes.
Que as chuvas cheguem no momento adequado; que a terra seja fértil; que o país esteja em paz; que os sabios estejam seguros.
Assim, os mantras, sejam do tipo que forem, são como “traduções” da manifestação inteligente presente na criação, que chamamos Īśvara. Nas Upaniṣads, o próprio mantra Oṁ, por exemplo, é considerado um símbolo sonoro, o “corpo, em forma de som”, da Inteligência Criativa.
Mantra Yoga é o Yoga dos sons, que apontam para a pessoa calma e simples que você é, para além de quaisquer identificações, quaisquer papéis que representemos na vida e quaisquer opiniões que possamos ter sobre nós mesmos.
Se nos dermos conta de que ficamos presos na identificação com esses eventos, ou com os sentimentos que possam surgir junto com eles, precisamos quebrar esse molde. Precisamos nos libertar e deixar cair essa ideia: não somos o conteúdo dos pensamos ou das emoções. Você não é uma agenda. Você é plenitude.
O que somos em verdade é a plenitude sobre a qual todas as experiências acontecem. É por isso que, para termos uma vida feliz, não precisamos nem correr atrás nem negar as experiências ou sentimentos que vivemos, mas aceitar todos eles como são, compreendendo que somos essa plenitude, sobre a qual todas as experiências acontecem.
Para além da pessoa, para além da ideia que temos e cultivamos sobre nós mesmos, sobre o lugar que ocupamos na vida ou na sociedade, somos plenitude. Somos consciência. Somos felicidade.
O som de um mantra é muito mais que o “eco” mental que acontece quando repetimos uma palavra um monte de vezes. É uma ferramenta transformadora. Idealmente, não deveria haver tremor nem oscilações na voz. A nota musical em que se faz o mantra não é importante: serve a que resultar mais natural para você. Porém, quando praticarmos em grupo, todos devemos buscar um som intermediário, que seja, na medida do possível, confortável para todas as gargantas.
Esse som, via de regra, costuma ser a nota Do, que não é nem muito grave para as mulheres nem muito aguda para os homens. O tampura que usamos nas gravações está, ora em Do, ora em Do sustenido, ora em Si ou Lá sustenido, que são as notas contíguas ao Do. Porém, ainda usamos outras notas diferentes e distantes dessas, como o Fa, o Fa sustentido, o Re ou o Sol.
Daí você pode ter experiências diferentes e começar a identificar o seu śrutiḥ pessoal, a nota na qual a sua garganta vibra de maneira mais natural. Se tiver alguma dívida, fale comigo sobre isso no canal que usamos para nos comunicar.
E lembre que, se uma nota for desconfortável para seu aparelho fonador, basta fazer aquela prática mentalmente.
Imagem de destaque: Dois ascetas ouvem música numa varanda ao luar. Wellcome Collection (domínio público).
॥ हरिः ॐ ॥
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