Miniatura da Jogapradīpikā (c. 1830): Yogi sentado sob a árvore, com um discípulo junto à água

Como Praticar os Mantras: a Atitude Correta

Por Pedro Kupfer 7 de novembro de 2026 6 minutos de leitura

श्रीः

स्वस्तिपाठः

Como Praticar os Mantras

A Atitude Correta · Pedro Kupfer

Esse mantra tem duas estrofes e é o mais extenso que vimos até aqui. Possui algumas características que veremos daqui a pouco, na prática.

O mantra

ॐ स्वस्ति प्रजाभ्यः परिपालयन्तां ।
न्यायेन मार्गेण महीं महीशाः ।
गोब्राह्मणेभ्यः शुभम् अस्तु नित्यं ।
लोकाः समस्ताः सुखिनो भवन्तु ॥

oṁ svasti prajābhyaḥ paripālayantāṁ |
nyāyena mārgeṇa mahīṁ mahīśāḥ |
gobrāhmaṇebhyaḥ śubham astu nityaṁ |
lokāḥ samastāḥ sukhino bhavantu ||

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O Svasti Pāṭha é uma bela invocação de felicidade, que estabelece a intenção de trabalharmos juntos por um mundo mais justo.

Para nos aprofundar nesse tema, vale refletir sobre uma afirmação que o grande estudioso Mircea Eliade fez sobre os mantras:

“Um mantra é um símbolo no sentido arcaico do termo: é ao mesmo tempo a realidade simbolizada e o signo que simboliza. Existe uma correspondência oculta entre, por uma parte, as letras e as sílabas (…) e os órgãos sutis do corpo humano, e, por outra, entre esses órgãos e as forças latentes ou manifestas no cosmos.” Mircea Eliade, El Yoga. Inmortalidad y Libertad, p. 161.

Nessa forma de olhar para a Criação, que se chama bandhu, ou visão das correspondências, percebemos que tudo no Universo está intimamente ligado. Intrinsecamente presente em cada manifestação percebemos a presença invariável de Īśvara, a Inteligência Criativa.

Nesse sentido, a importância dos mantras é que eles sao como como “portais” que interconectam todas as dimensões da existência, que nos ajudam a perceber essa interconexão, compreendê-la e entrar em harmonia com ela.

Assim, se quisermos permanecer conscientes dessa interconexão, pode ser útil compreender a maneira em que os mantras funcionam e trabalhar ainda sobre a atitude correta para fazê-los.

Assim, devemos lembrar que se a prática for feita sem colocar a consciência no mantra, este não irá muito além do movimento mecânico das cordas vocais, com efeito quase inócuo, além de deixar a mente um pouco mais calma.

Os mantras não podem ser aprendidos apenas lendo livros ou ouvindo pessoas verbalizando-os. É preciso que haja um contexto adequado e conduzente para o aprendizado, a fim de evitar erros de pronúncia ou execução e, principalmente, para que possamos entender o que eles revelam e cultivar a atitude correta ao fazê-los.

Estabelecer uma relação entre a forma e o significado, como disse Eliade na citação que fizemos agora há pouco, é essencial. Nesse sentido, um antigo texto da tradição do Yoga chamado Rudrayamālā, afirma que:

Os mantras feitos sem a correspondente ideação são apenas um par de letras mecanicamente pronunciadas. Não produzirão nenhum fruto, mesmo se repetidas um bilhão de vezes.

Ou seja, um mantra que se faça sem consciência, técnica correta, respiração e atitude adequadas dará tanto resultado para a sua meditação como a repetição da palavra sapato ou qualquer outra. É por isso que o Kūlarnava Tantra (xv:55) diz que será tão útil como “a água de um jarro quebrado.”

Este mesmo texto nos recomenda ainda o seguinte:

Durante o japa devem evitar-se a inércia, a aflição, a atividade desnecessária, a imaginação desvairada… Fique em paz, seja higiênico e frugal com a comida, durma no chão (i.e., num colchão duro), cultive uma atitude de confiança e entrega, comandando a mente, livre das dualidades, com a mente estável, silencioso e com disciplina e então, faça japa. Kūlarnava Tantra, xi:19.

A palavra japa, que é mencionada aqui no texto, designa a repetição de um mantra para efeitos de meditação. Assim, os mantras evocam e despertam em nós a motivação para conhecer e encarnar essas forças para as quais os sons apontam.

Através deles podemos desenvolver nosso potencial real. Quanto mais em sintonia com a intenção de cada mantra, mais eficiente e transformadora será a experiência de meditar sobre eles.

Oṁ. Que a prosperidade e o bem-estar sejam glorificados. Que os governantes nos governem com retidão e justiça. Que a sabedoria e o conhecimento sejam protegidos. Que todos os seres, em todos os lugares, sejam felizes.

Que as chuvas cheguem no momento adequado; 
que a terra seja fértil; que o país esteja em paz; 
que os sabios estejam seguros.

Imagem de destaque: Yogi sentado sob a árvore, com um discípulo junto à água. Jogapradīpikā, c. 1830, British Library (domínio público).

॥ हरिः ॐ ॥

Nesta série: Mantras no cotidiano · Fundamentos do Mantra Yoga

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Pedro Kupfer

Pedro nasceu no Uruguai em 1966. Conheceu o Yoga na adolescência e pratica desde então. Aprecia o Yoga mais como uma visão do mundo que inclui um estilo de vida, do que uma simples prática. Escreveu e traduziu 10 livros sobre Yoga, além de editar as revistas Yoga Journal e Cadernos de Yoga e o site yoga.pro.br. Para continuar seu aprendizado, visita à Índia regularmente há mais de três décadas.
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