Miniatura da Jogapradīpikā (c. 1830): Yogi em meditação, com o ponto no coração

Gaṇeśa Gāyatrī: o Japa e a Mente Unidirecionada

Por Pedro Kupfer 7 de novembro de 2026 6 minutos de leitura

श्रीः

गणेशगायत्री

Gaṇeśa Gāyatrī

O Japa e a Mente Unidirecionada · Pedro Kupfer

Porém, antes de iniciar a prática queria dizer aqui mais uma palavra sobre a meditação nos mantras. Ela recebe o nome de japa. Japa é a repetição de um cântico significativo, que nos ajude na conexão com (e a compreensão do) Ilimitado que somos. Esse cântico pode ser um mantra como Oṁ namaḥ Śivāya, Oṁ namo Nārāyaṇāya, Oṁ Nīlakaṇṭhāya namaḥ, o Mahamantra e muitos outros.

O mantra

ॐ एकदन्ताय विद्महे ।
वक्रतुण्डाय धीमहि ।
तन्नो दन्ती प्रचोदयात् ॥

oṁ ekadantāya vidmahe |
vakratuṇḍāya dhīmahi |
tanno dantī pracodayāt ||

Considera-se que o mantra feito mentalmente seja mais poderoso que o verbalizado ou o sussurrado. O mantra associado com a respiração produz resultados tanto físicos como sutis, beneficiando as emoções e a circulação da força vital.

Como funciona o japa?

Ninguém consegue prever qual será seu próximo pensamento. A mente possui sua própria agenda, que é aparentemente aleatória. A virtude do japa é que conseguimos antecipar isso, o que é uma bela vantagem para conseguirmos lidar conhecimento os nossos pensamentos de maneira equânime.

Por exemplo, se fazemos o mantra Oṁ namaḥ Śivāya, podemos comprovar que a mente irá se mover entre o significado do mantra e os símbolos que estão associados a Śiva: o monte Kailaśa, que é o mítico eixo do mundo, a imagem de Śiva sentado na postura do lótus, o som do mantra, o significado da palavra Śiva, benéfico.

Porém, daí a mente pode continuar divagando noutras direções: “pois é, um dia eu devia fazer a peregrinação ao monte Kailaśa, com a minha família. Mas nunca com a minha sogra!” E assim o processo continua incessantemente. O detalhe: as emoções vão oscilando também sem parar, em função do tipo de pensamento que temos e como reação a eles.

Cura Emocional

Essa é a natureza do pensamento. É assim que ele opera. E não há nada de errado em relação a esses padrões lógicos. Pelo contrário. Cada pensamento nos conduz a um novo por associação livre, que nos leva por sua vez a outro, e assim sucessivamente.

O problema é que alguns desses conteúdos geram apego. Sejam memórias passadas, sejam desejos, seja a vontade de que o tempo pare ou corra, alguns desses pensamentos terminam em sofrimento.

Em muitos casos, essa memória seletiva acaba por se tornar um fardo que nos impossibilita o crescimento em termos emocionais. Acabamos ficando tão apegados à ideia que temos sobre quem somos que esquecemos da nossa real identidade, que é Plenitude.

Através de uma seleção de memórias fundamentais, acabamos por construir a ideia que temos sobre nós mesmos. Ideia que, em muitos casos é errada e está muito, mas muito distante da Felicidade que somos.

Essas crenças ficam tão arraigadas em nós que é bem difícil neutralizá-las. Essa é a razão pela qual muitas vezes acabamos por ficar apegados a um relacionamento em que alguém tenha que nos dar validação ou aprovação desde fora, já que não temos aprovação de nós mesmos, nem autoestima elevada.

A recitação dos mantras tem mais uma vantagem muito importante, além do que já sabemos sobre manter o foco, aumentar a capacidade de concentração e a organizar o nosso dia-a-dia: ela também nos ajuda a neutralizar o apego à ideia equivocada que temos sobre quem somos.

É capaz de nos tirar desses padrões de pensamento limitadores. Ao fazemos japa, antecipamos o pensamento seguinte, já que o mantra se repete sem variações por um período. Qualquer distração pode servir como ocasião para retornar com a mente ao foco no mantra que estamos fazendo. Isso é meditação.

O Gaṇeśa Gāyatrī Mantra tem apenas três versos de oito sílabas cada um. A tradução é a seguinte: “Oṁ. Voltemos nossos pensamentos para aquele com uma presa (Ekadanta). Que aquele que tem a tromba curva (Vakratuṇḍa) ilumine nossas mentes. Que aquele dotado de uma presa nos conduza no caminho reto”.

Imagem de destaque: Yogi em meditação, com o ponto no coração. Jogapradīpikā, c. 1830, British Library (domínio público).

॥ हरिः ॐ ॥

Nesta série: Deuses e arquétipos

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Pedro Kupfer

Pedro nasceu no Uruguai em 1966. Conheceu o Yoga na adolescência e pratica desde então. Aprecia o Yoga mais como uma visão do mundo que inclui um estilo de vida, do que uma simples prática. Escreveu e traduziu 10 livros sobre Yoga, além de editar as revistas Yoga Journal e Cadernos de Yoga e o site yoga.pro.br. Para continuar seu aprendizado, visita à Índia regularmente há mais de três décadas.
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