श्रीः
ॐ नमः शिवाय
Oṁ Namaḥ Śivāya
A Eterna Mu-Dança · Pedro Kupfer
O célebre Oṁ namaḥ Śivāya é conhecido como pañcākṣara, ou “mantra das cinco sílabas”. Ele aparece no Ṛg Veda, um dos textos mais antigos da Humanidade e certamente o primeiro onde se expõe o Yoga como visão libertadora.
O mantra
ॐ नमः शिवाय ॥
oṁ namaḥ śivāya ||
Literalmente, namaḥ Śivāya significa “minha saudação ao Benéfico”. Śiva é o Benéfico. E o Benéfico é a mudança, representada por Śiva em sua forma de Natarāja, rei da dança. A dança, por sua vez, aponta para o movimento constante, bem como para a celebração da criação, que é expressão da felicidade plena.
Śiva dança e o mundo tem lugar. Śiva dança e seus longos dreadlocks (jaṭā, em sânscrito) giram horizontalmente com a força dos giros. Śiva dança num pé só e o Universo acontece. As galáxias, o sol, a lua e os demais corpos celestes estão em sua cabeleira. Os dreadlocks, as tranças de Śiva são o próprio firmamento que vemos.
Numa das suas quatro mãos segura o fogo, que representa a luz do conhecimento do Ser. Com outra mão segura o tambor ḍamaru, que marca o ritmo de expansão e recolhimento da Criação. O som do tambor simboliza a presença do espaço e consequentemente do som que se propaga através dele. É pelo espaço que se expandem as palavras que trazem o conhecimento libertador.
Faz o gesto de espantar o medo, abhāya mudrā, para nos indicar que não precisamos ter, alimentar ou viver presos aos nossos receios. Também faz o gesto de dar bênçãos, varada mudrā, apontando para o próprio pé, dizendo: “tome refúgio aos meus pés”. Na tradição do Yoga, os pés do mestre representam o poder do conhecimento.
Seus braços, tronco, pescoço e pernas estão rodeados por serpentes naja, que simbolizam o domínio do poder do inconsciente. As serpentes representam aquilo que ignoramos sobre nós mesmos. Śiva dança sobre um demônio derrotado, chamado Mūlyalāka e representando o egoísmo, e sinaliza assim a vitória sobre a ignorância existencial.
Ao ouvir o mantra, pensemos nisto: compreendendo que os desejos não têm fim, e tampouco a capacidade de nos tornar felizes, abrimos mão do apego que nutrimos por eles. Isso fará com que possamos descobrir a nós mesmos como a felicidade que poderíamos estar buscando nesses desejos.
Quando nos reconhecemos como felicidade, quando nos vemos como simplicidade e calma, compreendemos que nada pode ser acrescido ou tirado de nós. Assim, o apego e o sofrimento se enfraquecem e cessam. Isso é mokṣa, a libertação, objetivo final do Yoga.
A Taittirīya Upaniṣad (III:6:1) diz que o menino yogi Bhṛgu “conheceu ānanda, a felicidade, como sendo o Ser. Pois, de fato, é da felicidade que todos os seres são criados. Tendo nascido, eles são sustentados pela felicidade. Se movem em direção à felicidade, e nela se absorvem”.
O indivíduo é uma manifestação do Todo, assim como a onda é uma manifestação do Oceano. Quando a onda pára de olhar para si mesma como sendo limitada, e compreende que é Oceano infinito, vive tranquila e feliz.
Somos a própria plenitude, à qual nada pode ser acrescido e da qual nada pode ser tirado. Quando olhamos dessa forma para nós mesmos, desaparece aquela pressão, aquela insegurança, aquela vontade de que o tempo voe ou pare, aquela vontade de pretender controlar situações ou pessoas. Assim, aceitamos com gratidão o que recebemos e temos para viver a cada dia.
Imagem de destaque: Śiva Naṭarāja, Tamil Nadu, séc. XI. Cleveland Museum of Art (CC0).
॥ हरिः ॐ ॥
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