Bronze (Sul da Índia, séc. XVIII–XIX): Lamparina votiva (Dīpa-Lakṣmī)

Dīpaślokaṁ: os Versos da Lamparina

Por Pedro Kupfer 7 de novembro de 2026 5 minutos de leitura

श्रीः

दीपश्लोकः

Dīpaślokaṁ

Os Versos da Lamparina · Pedro Kupfer

O Dīpaślokaṁ é um mantra de quatro versos dedicado à Luz do Conhecimento, simbolizado pela luz da lamparina. O mantra é chamado dīpaślokaṁ, ou Versos da Luz da Lamparina. Śloka é uma estrofe de quatro versos octossilábicos, composta na métrica chamada anuṣṭubh.

O mantra

शुभं करोति कल्याणम् आरोग्यं धनसम्पदः ।
शत्रुबुद्धिविनाशाय दीपज्योतिर् नमोऽस्तु ते ॥ १ ॥
दीपज्योतिः परब्रह्म दीपज्योतिर् जनार्दनः ।
दीपो हरतु मे पापं दीपज्योतिर् नमोऽस्तु ते ॥ २ ॥

śubhaṁ karoti kalyāṇam ārogyaṁ dhanasampadaḥ |
śatrubuddhivināśāya dīpajyotir namo’stu te || 1 ||
dīpajyotiḥ parabrahma dīpajyotir janārdanaḥ |
dīpo haratu me pāpaṁ dīpajyotir namo’stu te || 2 ||

Ouça na Rádio Havelī: Dīpaślokaṁ

Depois faremos um mantra para consagrar o alimento, um mantra para tomar banho e ainda um mantra para vencer o egoísmo.

Nesta altura, você pode ter a sensação de que o Yoga está, literalmente, “se metendo” em sua vida. O que nós pretendemos, com estas práticas, é lembrar do fundamental, do sagrado, em todos e cada um dos momentos do nosso cotidiano. É, no melhor dos sentidos da palavra, ritualizar cada experiência, cada hora vivida. A palavra ritual é habitualmente intepretada como cerimônia religiosa, mas também significa uso, costume ou prática.

Aqui, para nós, ritualizar os nossos pequenos atos do dia-a-dia é uma prática que fazemos com o intuito de tomar consciência da que permeia toda a vida. Se não assumirmos a nossa verdadeira natureza agora, hoje, aqui mesmo, quando é que faremos isso?

As Upaniṣads não dizem que em algum momento futuro você vai se tornar Pleno. Dizem que você é Pleno agora mesmo. aqui, onde você está, apesar de tudo o que você tem para fazer hoje, amanhã, ano que vem e no outro. Vamos assumir isso agora? Vamos dar uma chance ao ensinamento?

Este mantra pode ser feito no início das nossas práticas de meditação, ao acender uma vela ou lamparina de óleo no nosso altar, se mantivermos um. É uma forma muito direta, breve e bonita, através do simples gesto de acender a chama, de lembrar da presença da luz, que simboliza o Ser Ilimitado, presente em tudo e em todos.

Fazer e manter um altar doméstico é algo lindo, fácil e inspirador, já que ao criarmos um espaço no nosso lar onde possamos fazer as nossas preces, praticar āsanas, prāṇāyāmas ou meditações, ou simplesmente ficar em silêncio, esse espaço sagrado nos ajuda a manter o foco e a presença nas nossas prioridades. Isso, por sua vez, nos permite organizar melhor o nosso dia-a-dia, abrindo um espaço para o sagrado dentro da nossa rotina pessoal.

Podemos colocar imagens sagradas que sejam significativas para nós nesse altar, e diariamente, fazer oferendas de maneira espontânea, seguindo a voz do nosso próprio coração, já que todas as formas são válidas. Uma das oferendas mais freqüentes e bonitas é justamente a da luz, que representa o Conhecimento. Especialmente, a oferenda da luz, junto com este mantra, é feita na ocasião do Diwali ou Festival das Luzes, que marca o Ano Novo do calendário védico.

Esse festival acontece no mês lunisolar de kārtikaḥ, e cai no dia da lua nova da segunda metade de Outubro ou da primeira quinzena de Novembro, no calendário gregoriano. A ocasião celebra a vitória de Sītā e Rāma sobre o demônio Rāvaṇa, e seu retorno à cidade de Ayodhya, conforme aparece no épico Rāmāyāṇa.

Porém, sintetizando o tema em poucas palavras, podemos dizer que esta é a festa da vitória da Luz sobre a escuridão, do Conhecimento sobre a ignorância existencial, da compaixão sobre o egoísmo.

“A luz da lamparina traz auspiciosidade, saúde e prosperidade em abundância. Minhas saudações à luz da lamparina [que representa o Conhecimento], para que a ignorância, inimiga do intelecto, seja destruída. Minhas saudações à luz da lamparina [que representa] Parambrahma [o Absoluto Não-Manifestado] e Janārdhana [Viṣṇu, o Absoluto, manifestado na forma da Criação]. Que a luz do Conhecimento representado pela lamparina remova as minhas equivocações. Saudações à luz da lamparina”.

Imagem de destaque: Lamparina votiva (Dīpa-Lakṣmī), Sul da Índia, séc. XVIII–XIX. Cleveland Museum of Art (CC0).

॥ हरिः ॐ ॥

Nesta série: Mantras no cotidiano

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Pedro Kupfer

Pedro nasceu no Uruguai em 1966. Conheceu o Yoga na adolescência e pratica desde então. Aprecia o Yoga mais como uma visão do mundo que inclui um estilo de vida, do que uma simples prática. Escreveu e traduziu 10 livros sobre Yoga, além de editar as revistas Yoga Journal e Cadernos de Yoga e o site yoga.pro.br. Para continuar seu aprendizado, visita à Índia regularmente há mais de três décadas.
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