Escultura de arenito (Mathura, c. 700): Gaṅgā, a deusa do rio

Gaṅge ca Yamune: o Mantra para o Banho

Por Pedro Kupfer 7 de novembro de 2026 5 minutos de leitura

श्रीः

गङ्गे च यमुने

Gaṅge ca Yamune

O Mantra para o Banho · Pedro Kupfer

Vale lembrar a importância de ritualizar os pequenos eventos do cotidiano para não esquecer que todo momento vivido, por rotineiro ou insignificante que possa parecer é, em verdade, especial, único e irrepetível.

O mantra

गङ्गे च यमुने चैव गोदावरि सरस्वति ।
नर्मदे सिन्धु कावेरि जलेऽस्मिन् सन्निधिं कुरु ॥

gaṅge ca yamune caiva godāvari sarasvati |
narmade sindhu kāveri jale’smin sannidhiṁ kuru ||

Ouça na Rádio Havelī: Mantra das Águas

Contextualizar cada momento não apenas nos ajuda a lembrar da sacralidade do fato de estarmos vivos mas igualmente nos ajuda a estabelecer molduras em momentos do dia-a-dia, que por sua vez nos auxiliam a viver de maneira mais consciente e equânime cada experiência que a vida nos brinda.

Os sete grandes rios da Índia cujos nomes você acaba de ouvir no mantra são: Gaṅgā, Yamunā, Godāvarī, Sarasvatī, Narmadā, Sindhu e Kāuverī. Eles simbolizam princípios diferentes. Gaṅgā, que flui desde o Himalaia, representa o autoconhecimento. Narmadā simboliza o Yoga. Porém, todos têm algo em comum: são sagrados, não apenas porque a água é vital para a existência humana mas igualmente porque ela é um bonito símbolo do conhecimento, da fluidez e da dinâmica da própria existência.

Sarasvatī, por exemplo, não é apenas o nome de um rio que atravessava a antiga Índia, sendo “largo até o infindável”, segundo o Ṛg Veda, que o menciona inúmeras vezes. Sarasvatī, como você já sabe, também é o nome da deusa da sabedoria, das artes e das ciências. O nome significa “aquela que flui” e se refere não apenas à água, mas também a ela como símbolo do conhecimento libertador.

O Gaṅgā e o Yamunā, correm no norte do país. O rio Sindhu ou Indo está no atual território do Paquistão, ao noroeste. Foi à beira dele que nasceu o Yoga, mais de 5000 anos atrás. O Sarasvatī corria em tempos antigos parelelamente ao Indo, no atual deserto de Thar, no oeste do Rajastão, mas devido a um cataclisma hoje em dia seu leito está seco. Outros, como o Godāvarī e o Narmadā, ficam no centro do subcontinente. O Kāuverī flui no sul.

Agora, é fato que todas as águas de todos os rios, lagos, mares e oceanos do planeta estão conectadas. A conexão entre os diversos corpos de água não acontece apenas quando um rio chega no mar, um mar se conecta com o oceano, ou os oceanos se encontram.

As águas circulam também pela atmosfera, na forma da evaporação e das chuvas, e são levadas para todos os lugares pelos ventos, marés e correntes. Assim, é fato que todas as águas de todos os rios já foram nuvens, gelo, chuva, ondas, desde muito antes da presença da vida no nosso planeta.

Há muitos rios, lagos e mares, mas uma água única. Da mesma maneira, há muitas manifestações do Ser Ilimitado, único e invariável, que está presente em cada uma das miríades de formas de vida e objetos inanimados, o tempo todo. Assim há uma Consciência Única. Há uma água só. O mantra nos ajuda a tomar consciência dessa interconexão profunda existente na natureza e a lembrar que essa interconexão, por sua vez, nos permite apreciar a glória da Criação em todo seu esplendor.

Esta oração pode ser considerada uma forma de reconhecimento da importância das águas em nossas vidas. E um lembrete de cuidarmos bem desse líquido precioso e vital, não apenas para os seres humanos mas para a própria presença da vida na terra.

A tradução é assim: “Oṁ. Que as águas dos sete rios sagrados, Gaṅgā, Yamunā, Godāvarī, Sarasvatī, Narmadā, Sindhu e Kāuverī, estejam presentes nesta água para a minha total purificação, interna e externa”.

Imagem de destaque: Gaṅgā, a deusa do rio, Mathura, c. 700. Cleveland Museum of Art (CC0).

॥ हरिः ॐ ॥

Nesta série: Mantras no cotidiano

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Pedro Kupfer

Pedro nasceu no Uruguai em 1966. Conheceu o Yoga na adolescência e pratica desde então. Aprecia o Yoga mais como uma visão do mundo que inclui um estilo de vida, do que uma simples prática. Escreveu e traduziu 10 livros sobre Yoga, além de editar as revistas Yoga Journal e Cadernos de Yoga e o site yoga.pro.br. Para continuar seu aprendizado, visita à Índia regularmente há mais de três décadas.
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