Pintura (Bikaner, Rajasthan, início do séc. XVIII): Adoração de Śiva e da Devī

Śiva Gāyatrī: a Liberdade

Por Pedro Kupfer 7 de novembro de 2026 7 minutos de leitura

श्रीः

शिवगायत्री

Śiva Gāyatrī

A Liberdade · Pedro Kupfer

O Śiva Gāyatrī Mantra é uma meditação sobre a liberdade. Liberdade é o direito de agir, nos expressar ou pensar como desejamos. Também é a ausência de sujeição a um poder despótico ou a capacidade de autodeterminação. Igualmente, é uma condição em que não há escravião ou restrições de qualquer tipo. Essas maneiras de definir a liberdade, via de regra, se aplicam às sociedades e aos indivíduos.

O mantra

ॐ तत्पुरुषाय विद्महे ।
महादेवाय धीमहि ।
तन्नो रुद्रः प्रचोदयात् ॥

oṁ tatpuruṣāya vidmahe |
mahādevāya dhīmahi |
tanno rudraḥ pracodayāt ||

Porém, quando usamos aqui a palavra liberdade (e já dizemos em mais de uma oportunidade que ela é o objetivo fundamental do Yoga), nos referimos a liberdade interior. Liberdade, no contexto do Yoga, não é fazer o que se quer, nem é algo hipotético ou ideal. Não é ganhar o céu, ir ao paraíso ou viver depois da morte. O Yoga não faz esse tipo de promessa nem está interessado nesses temas.

Liberdade é conhecer a si mesmo como pleno Ser, mais além de quaisquer limitações inerentes ao corpo ou à mente. Liberdade, é agora. Liberdade é já. Liberdade não é alguma experiência que irá acontecer no futuro. Temos uma destas duas opções: ou nos reconhecemos como livres, agora, ou continuaremos eternizando os mesmos erros.

Quando falamos em liberdade nos referimos a algo bem concreto: a capacidade de aliviar o nosso coração de correntes como culpas, crenças, remorso, mágoas e toda sorte de pensamentos limitadores. Nos referimos à capacidade de transcender emoções paralisantes, como o medo, a raiva ou a tristez. Nos referimos à compreensão profunda de nós mesmos, para além de quaisquer condicionamentos culturais, sociais, familiares ou íntimos.

Como nos livrar de culpas e mágoas? Esta é uma questão importante que pede, da nossa parte, uma compreensão precisa das omissões e comissões próprias e alheias, bem como do limite entre o que somos e os papéis que representamos.

Omissão é algo que deixou de ser feito. Comissão é algo que foi feito. Omissões e comissões próprias são referentes ao papel fazedor. Omissões e comissões alheias são referentes ao papel do desfrutador. Em todo caso, estamos lidando com papéis, não com a pessoa fundamental que somos.

Omissões e comissões minhas me trazem, eventualmente, um sentimento de culpa. Um exemplo de omissão e quando me lamurio dizendo “por que não fiz isto?” Uma comissão, por outro lado, me traz um julgamento condenatório na forma de questões como “por que é que fiz isto?”

Omissões e comissões dos demais me ferem, me magoam. Um exemplo de omissão alheia é se lamentar dizendo: “por que ele não fez isto?” Um caso de comissão alheia, por sua vez é se queixar com palavras como: “por que ele fez isto?”

A culpa sempre acompanha àquele que se identifica como agente das ações. A mágoa sempre acompanha àquele que se identifica como desfrutador dos resultados delas. A solução em qualquer caso é sempre a mesma: deixar de ver a si mesmo como aquele que faz as ações, ou como alguém capaz de controlar os seus frutos. Já vimos que nosso privilégio como indivíduos é agir, mas que esse privilégio não se estende aos resultados das ações.

Você não é nem o agente das ações nem o desfrutador dos seus resultados. Você é a testemunha invariável que observa as ações e seus resultados. Compreender isso é liberdade. Assim, você diz adeus a culpas e mágoas e fica livre para viver uma vida harmoniosa e feliz.

Liberdade agora. Liberdade em relação a condicionamentos ou crenças. Liberdade em relação a culpas ou mágoas. Liberdade em relação a condicionamentos e limitações. Já somos livres. Só precisamos reconhecer esse fato. Liberdade é o que somos.

“Oṁ. Que possamos conhecer (vidmahe) este Ilimitado (Puruṣa), meditando (dhīmai) na forma de Mahādeva. Que este Rudra (Śiva) possa nos (naḥ pracodayāt) conduzir a Ele”.

Rudra é um dos nomes mais antigos de Śiva. Significa duas coisas: por um lado, aponta para aquele que destrói a ignorância e nos liberta do saṁsāra, a existência condicionada, aflitiva e sófrega. Por outro, o nome também aponta para aquele em quem o Universo é reabsorvido no fim de cada ciclo cósmico.

Isso acontece através da dança de Śiva, que simboliza a eterna transformação, depois da qual ele se recolhe em meditação para absorver a criação. As imagens de Śiva em meditação simbolizam então Rudra, em quem se resolvem tempo e espaço no fim das eras cósmicas.

Na forma da criação, o Ser Ilimitado é Īśvara; na forma da absorção, é Rudra. Então, invocamos o Ilimitado na forma de Rudra neste mantra, para que, através da sua graça, a ignorância e o sofrimento sejam removidos das nossas vidas.

Que possamos levar as nossas mentes na direção correta, para que possamos reconhecer, através da visão clara, o Ilimitado, presente em tudo e em todos. Que nossos pensamentos brilhem. Que nosso coração esteja em paz.

Imagem de destaque: Adoração de Śiva e da Devī, Bikaner, Rajasthan, início do séc. XVIII. Cleveland Museum of Art (CC0).

॥ हरिः ॐ ॥

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Pedro Kupfer

Pedro nasceu no Uruguai em 1966. Conheceu o Yoga na adolescência e pratica desde então. Aprecia o Yoga mais como uma visão do mundo que inclui um estilo de vida, do que uma simples prática. Escreveu e traduziu 10 livros sobre Yoga, além de editar as revistas Yoga Journal e Cadernos de Yoga e o site yoga.pro.br. Para continuar seu aprendizado, visita à Índia regularmente há mais de três décadas.
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